offroad touring serras serra geral

Eu tirei férias da Pedal e ainda não tinha o que fazer. Algumas mudanças de planos. Resolvi sair pedalando de casa com 1 meta para cumprir: Completar todas as serras da Serra Geral que eu ainda não tinha passado pedalando. Eu já tinha subido a Boa Vista, o Umbu e o Faxinal noutros tempos.

Primeiro passo foi a escolha da bike. Escolhi a Stumpjumper pelo pavimento (maioria em asfalto) e robustez (eu levei tudo o que precisava pra cozinhar, dormir ao relento, vestir de 5 a 40ºC e beber água um dia inteiro). Já venho preparando essa bicicleta pra isso faz um tempo e esse é o cavalo mais confiável que eu tenho: quando me perguntam pra que ela serve, eu digo que é para ir ao inferno.

offroad touring serras serra geral

Depois, comecei a traçar as rotas, ler alguns relatos, conversar com os meus gurus e fazer as listas do que eu precisava organizar pra enfrentar 9000 metros de altimetria e 650km em 8 etapas. Começando em Porto Alegre  – RS e terminando em Tubarão – SC. A ideia inicial era voltar pedalando, mas depois eu falo sobre isso.

Eu tinha tudo na mão. Precisei passar no atelier da Eleven Bags pra fazer umas costuras, pegar um óleo de corrente na casa do Helton e lembrar o João de me alcançar o velocímetro sobressalente que ele tinha. A bicicleta estava sólida como uma pedra. Passei na oficina do Cláudio pra ele examinar as rodas e a direção, peguei um cabo de freio e um de cambio reserva e tudo certo, não precisei apertar nenhum parafuso.

– Dia 1: Porto Alegre – Terra de Areia (150km +400m)
6h saí cedo, via Freeway;
12h estava almoçando massa chinesa com gergelim e merken no centésimo kilometro;
16h já estava instalado no pátio do corpo de bombeiros de Terra de Areia. Repeti o rango, dormi cedo.

– Dia 2: Rota do Sol. Entre Terra de Areia e Cambará do Sul (100km +1600m)
6h já estava saindo pelo portão, como combinado no dia anterior;
12h  já tinha subido toda a Rota do Sol e estava almoçando em Tainhas. Que sensação;
16h estava instalado na casa do Jôse e da Carol em Cambará. Pouso que o amigão Neyton da Montanha Equipamentos arranjou pra mim.

Nesse dia, logo pela manhã, um prego atravessou o meu pneu traseiro inescrupulosamente, entrando na parte de cima e saindo bem ao lado do arame, causando uma bela explosão na lateral do pneu bem ao pé da Rota do Sol. Vai tomar no cu. Inverti os pneus pra usar o rasgado na frente, fiz um bacalhau com pedaço de pet e fita tape e segui com 10psi. Achei uma oficina, comprei um Levorin Praiero por R$40 e outra camara por R$10. Nesse momento mudei o setup da bike: passei os alforges que estavam na dianteira para a traseira, troquei o isolante termico que estava na mochila pelo saco estanque que continha meu saco de dormir e toda minha roupa. Resumindo transferi todo o peso para a traseira da bike e consegui rodar com o Schwalbe Marathon na frente até o fim da viagem sem nenhum furo. Carreguei o Levorin na reserva por segurança.

–  Dia 3: Serra da Rocinha. Entre Cambará do Sul e Timbé do Sul (75km +1280m)
10h fui ao supermercado comprar um café/almoço. Acordei mais tarde porque estava bastante cansado do dia anterior;
12h subi na bicicleta e pedalei 10km pelo caminho errado, consegui corrigir por uma conexão extremamente pedregosa, íngreme e deserta. Nada que eu não tivesse esperando;
15h já tinha desistido de descer a Rocinha (além dos avisos de interdição por causa das obras, implosões, máquinas ou algo que o valha, eu ainda tinha muito chão pra correr). Dessa vez a estrada era mais difícil que eu esperava. Muito buraco, muita pedra, muita pedra, muita pedra. Acabando a água. Pedi uma carona pra um dos únicos caminhões que vi em 3h ininterruptas de pedal. Sucesso. Economizei 14 km de deslocamento e consegui chegar no cume da serra no horário que eu tinha dado como limite: 16h. Desci a serra do jeito que o diabo gosta. Que sensação;
17h chegando em Timbé do Sul. Dormi no posto de gasolina do Sr Pingo, bem no centro da cidade. Comi qualquer coisa da unica padaria aberta. Fui acomodado num galpão nos fundos do posto.

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– Dia 4: Timbé do Sul – Lauro Muller (100km +1100m)
8h ja tinha tomado café e estava pedalando;
12h cheguei em Criciuma. Lembrei do Freitas e do Expresso Patagonia no começo da manhã e parei pra conversar com ele pelo celular num ponto de sinal. A estrada era um tapete semi-pedregoso, plano, talvez por isso eu lembrei desse guri. Ficamos uns 20m de ladaia pelo celular, planejando algumas coisas um pouco absurdas. Te aguardo!
14h almocei num buffett de R$10 super justo. Carreguei os eletronicos durante o rango. Meu joelho já estava com folga nesse momento. Decidi seguir porque a previsão do tempo estava batendo exatamente com o meu itinerário, eu não tinha nem 6h de folga, de acordo com o Windguru: ele acertou;
18h eu estava em Lauro Muller, num posto com WiFi, tomada, comida barata. Esperei a hora de dormir pra montar a barraca no lugar que eu tinha selecionado previamente. Escuro, escondido e com a falsa sensação de segurança por estar no terreno de um posto de gasolina. No outro dia eu ia subir a Serra do Rio do Rastro com chuva na cabeça o dia inteiro.

– Dia 5: Serra do Rio do Rastro. Entre Lauro Muller e Bom Jardim da Serra (36km +1432m)
8h acordei, desmontei acamp, aprontei tudo e fui comer qualquer coisa. Bolacha de agua e sal e café solúvel;
11h eu não tinha decidido se subiria a serra ou se esperaria a chuva passar, e ela só piorava;
12h avancei até o povoado de Guatá, que é o início da subida da serra e almocei. Decidi subir;
14h30 eu cheguei ao topo da serra. Que sensação. Vento, 8ºC. Sem fotos nesse dia. Apenas chuva, dor, chuva e sofrimento. 2h de subida;
18h ja tinha a minha barraca montada no ctg publico na cidade de Bom Jardim da Serra. Um lugar meio obscuro, desértico e um tanto quanto assustador, ainda mais sob chuva ao entardecer. Bom Jardim da Serra não tem registrado nenhum delito já fazem 10 anos, pelo menos. Eu acho que nesse dia eu não comi nada além do lanche e café no Mensageiro da Montanha no topo do Rastro (esse é o melhor nome de restaurante que eu já vi).

– Dia 6: Bom Jardim da Serra – Urubici (72km +1300m)
6h acordei, arrumei as coisas, comprei um pão e um queijo da colonia e fui pra um posto de gasolina tentar carona, meu joelho direito estava me tirando as ganas de pedalar;
12h o Sr Luis, um velhaco alemão de 1,90 de altura que trabalha com maçãs, me largou no trevo entre que divide a estrada para Urubici (destino) e São Joaquim. A bordo da sua F250 trocamos meia hora de papo furado sobre a vida, no trecho de uns 20km.
16h estava em Urubici, molhado como nunca, choveu toda a tarde de deslocamento. Eu já não tinha roupa seca. Quero voltar (vou voltar) com tempo seco pra andar nessa estrada. Apesar das várias subidinhas na região de Vacas Gordas (no meio do caminho), a chegada em Urubici fez eu me sentir no comando de um Boeing 747 pousando com chuva. Minutos e minutos de uma severa descida, contínua, flúida, pista molhada, tração questionável, 70km/h, bicicleta carregada. Nessas horas estar confiante na bicicleta e na experiência é imprescindível. Que sensação;
18h já estava instalado na minha anfitriã do Couchsurfing, sorte a minha. Fiquei 3 noites lá recuperando a patela, comendo e secando as roupas. Vitória, tu e a tua mãe salvaram a minha vida! Te agradeço pra sempre!

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– Dia 7: Serra do Corvo Branco. Entre Urubici e Braço do Norte (72km +1000m)
6h chovia muito, como estava na previsão. Me aprontei pra sair mesmo assim;
8h montei na bike, e confiei no windguru. Tinha poucas horas sem chuva.
10h eu já estava na Serra, na estrada de cascalho que leva para o ponto mais alto antes de descer. Com certeza o lugar mais bonito que eu passei em toda a viagem. Deserto. Estrada cravada na encosta da formação rochosa. Além disso, tem o corte na montanha, que é o maior do Brasil, com 90 metros de profundidade.
Era o ponto final da viagem e a conquista da meta. Agora eu tinha que descer vivo (não que eu tenha zelo pela minha vida numa descida de cascalho, mas confio no meu equipamento e na minha experiência pra andar no limiar da velocidade x tração dos pneus). Que sensação.
12h Almocei umas batatas doces que tinha feito no dia anterior, com sal e merken, coisa boa. Energizado segui rumo a Braço do Norte, onde tinha uma casa pra ficar. Casa da irmã do marido de uma amiga da esposa de um amigo. (kkkkk)

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Dia 8: Braço do Norte – Tubarão (36km +500m)
10h eu já estava em Tubarão tentando uma carona em algum caminhão pra voltar pra casa:
Queria voltar os kms restantes pedalando, mas o meu joelho desssa vez (mais uma vez… em Fevereiro fiquei empenhado no meio do circuito de trekking em Torres Del Paine) não colaborou. Eu não estava disposto a pedalar nem mais 10km, infelizmente. A força era grande, a gana maior ainda, mas o meu joelho me abandonou. Falta de alongamento, sobrepeso por boa parte da minha vida, e desde criança muita atividade física, quase diariamente. (Hoje em dia se eu fico 1 semana sem impelir força nos pedais em alguma atividade ciclística de alto risco eu enlouqueço. É a minha clínica)
13h eu já tinha atravessado o posto de gasolina de lá pra cá e atacado mais de 50 caminhoneiros sem sucesso. Comi uma marmita ótima no restaurante do posto, fui até o rodoviária, onde me disseram que não seria possível embarcar com a bike. Contei uma história daquelas, com ênfase nos pontos certos e fui-me embora pra dentro daquele busão. Bike montada em um bagageiro ótimo, sozinha, alforges no outro, mochila comigo na poltrona.
19h comi 4 salgados da Donna Laura, já estava na esquina de casa.

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Ainda tinha mais um tempo de férias. Tratei o joelho por 10 dias, troquei de bike, botei a mochila nas costas e fui pra mais 5 dias de chuva no Alto Mascarada, interior de Rolante-RS.

Checklist da viagem:

A bicicleta:

Specilized Stumpjumper Full Cromo Tange 1992
Pneus Marathon Greenguard 26×2.0
Bagageiros Tubus Smarti e Tubus Cargo Full Cromo
Cestinha da Marca Descubra Tire Wrap Universal Fixation
Rodas Vzan comuns com cubo Shimano
Canote Thomsom
Selim WTB Race 5
Mesa e Guidão Full Cromo, Bar End SPZ
Vbrake Shimano Altus + Manetes Deore
Shifters XTR 8v
Cambio Traseiro Shimano Altus
Cassette Descubra 11 32
Cambio Dianteiro Deore
Pedivela FSA 44 32 22
Central Quadrado Shimano 110mm
2 Suportes de Água Adaptados com Braçadeira Metálica
2 Suporte de Água Universais + Tiras de Compressão
Paralamas da marca Descubra + Apara-barro DIY

17kg

Bagagem:

Ortlieb Front Roller
Osprey Talon 22
Estanque Sea to Summit Big River 13L
Estanque Eleven Bags + Camera Bag Eleven Bags

2kg?

Dormitório:

Saco de dormir Lafuma
Barraca Azteq Minipak
Isolante Thermarest Z-Lite Sol

3kg

Cozinha:

Panela ultralight do bazar
Espiriteira, windshield, base e tampa
Sal, Merken, Azeite de Oliva
Alcool de cereais para combustão (700ml)
Spork Light My Fire Titanium
Faca Opinel n7
500g de macarrão tipo somen, que logo desapareceu
Barra de cereal, várias

Mais ou menos 2kg?

Farmácia:

Protetor solar
Clorin
Esparadrapo
Hipoglos
Nebacetin
Vitamina B12
Cortador de unha
Cobertor aluminizado de emergencia

Foto:

Camera
Lente 50mm 1.4
Lente 16-50mm
Carregador
2 baterias
Saco estanque

Sei lá, 1,5kg?

Eletro:

Power bank
Carregador
Celular
Headlamp Silva Otus + pilhas

Oficina:

2 câmaras reserva
Canivete Crank Brothers m17
Tarape, varios
Remendo e cola
Cabo de cambio reserva
Cabo de freio reserva
Fita isolante e tape
Bomba
Espátulas
Gancheira Universal
Óleo de corrente + trapo
Parafusos reserva
Balaca de freio

Era pesado, talvez 1,5kg

Extra:

Canivete  Victorinox 11 funções
Papel higienico
Livro pocket
Carteira / documentos

Roupas:

1 Short nike
1 Bermudas
1 Par de meia
1 Camiseta
1 Thermoskin
1 Thermoskin calça
1 Fleece
1 Anorak columbia
1 Par de luvas
1 Golatouca

Mais a roupa do corpo: 1 camiseta dryfit, 1 short, 1 bermuda, 1 par de meia, o capacete e a sapatilha.

1kg, super leve.

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Pra descer as serras, escolhi passar a maior parte do peso e a câmera fotográfica para a mochila. Assim tive uma bike mais leve, com peso melhor distribuído, mais ágil e pude aproveitar da MELHOR forma os momentos de maior adrenalina e risco.

Me arrependo de não ter pesado tudo, seja separadamente ou no peso total da bike. No momento que eu estava montando as coisas isso realmente não fez diferença, afinal, tinha certeza que não estaria levando nada supérfulo. No fim das contas fiz uma viagem autossuficiente com uma bicicleta muito divertida, sem maiores preocupações. O equipo tinha capacidade de carga sobrando, eu fui sozinho, ditei meu próprio ritmo, escolhi as estradas e a velocidade que andaria ladeira a cima ou abaixo. Todos os dias andei confortável, não passei fome, nem frio e nenhuma das coisas que levei deixou de ser usada.

Alguns registros fotográficos que fiz no caminho. Queria ter feito mais fotos, com mais tempo e mais paciência. Na maioria das vezes estava chovendo ininterruptamente ou eu estava correndo atrás do tempo pra cumprir a minha meta no prazo esperado. Preferi correr atrás do tempo. Assumi as consequências de viajar sozinho mas pude fazer tudo o que eu bem entendi, no momento que julguei oportuno.

 

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