Continuando a aventura do Leo Ferreira pela Serra da Mantiqueira.

ROTAÇÃO MANTIQUEIRA BIKEPACKING – EDIÇÃO 02

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_01

Se passaram 2 meses desde a primeira edição do Rotação Mantiqueira, e nossa, a correria de SP já estava uma loucura. Eu precisava voltar para as montanhas, sentir aquela sensação de leveza de novo, ter aquele pleno contato com a natureza. Isso se tornou um vício nos últimos anos.

UM DIA ANTES

É sempre uma correria, tudo precisa estar de acordo com o tutorial. Planejar a rota; fazer o checklist; conferir tudo, faltou algo…corre atrás; manutenção da bike; compra de passagem, e mais um pouco. Até que por final esteja em ordem.

O PLANO

Pegar o ônibus no Terminal Rodoviário do Tiete em SP com destino a Passa Quatro – MG, conhecer o Parque Nacional de Itatiaia e depois seguir por aventuras nos 230 km do Caminho dos Anjos, um lindo circuito para atividades outdoor no Sul de Minas.

Mas não aconteceu tudo como planejado, a começar com problemas na Sra. Aventureira.

PASSA QUATRO E A FÁBRICA DO RAIMUNDO

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_02

O ônibus me deixou na rodoviária em Passa Quatro por volta das 11h da manhã, montei a bike, abasteci as caraminholas e logo comecei a pedalar. Itamonte estava a 28km, eu precisava seguir por uma antiga linha férrea que cruzava a cidade toda. Foi bem fácil de achar, ela fica na avenida principal. Mas já na primeira força que coloquei nos pedais em uma pequena subida, a roda traseira saiu do lugar.

De cara já identifiquei o problema. Era o tensionador da corrente, sua solda estava trincada e abrindo cada vez mais.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_03

Por sorte encontrei os “brotherzinhos”. Dois garotos que estavam brincando na cidade e me levaram até a Fábrica do Raimundo, onde ganhei uma solda nova.

A peça ficou ótima e não me custou nada mais do que uma boa conversa com o seu Raimundo. Contei a ele sobre minhas aventuras, e ele disse que de uns anos pra cá o turismo tem ganhado muita força naquela região e que a Serra da Mantiqueira tem atraído muitos praticantes “dessas coisas que cês fazem de se aventurar”.

Após o susto pude continuar com o pedal mas um gostinho diferente já estava me acompanhando nessa aventura.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_04

Itanhandú é uma das cidadezinhas que fica entre Passa Quatro e Itamonte, nela eu demorei para achar a rota, todas as pessoas que eu perguntava passavam informações diferentes.

Quando encontrei, havia uma placa com as iniciais “ER” indicando que aquele trecho fazia parte da Estrada Real, hoje a maior rota turística do Brasil com mais de 1.630 quilômetros de extensão.

CAMPING EM ITAMONTE

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_05

Um lanche rápido em Itamonte antes de encarar 12 km de uma difícil subida de serra até o Picus, abrigo de montanha administrado pelo casal aventura Felipe Guimarães @feradamontanha e Thaiana Ferreira @tatanamontanha, lá me instalar para no dia seguinte conhecer o Parque Nacional de Itatiaia.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_06

Já no camping conheci uma turma de gringos que estavam ali afim de fazer a travessia da Serra Fina, considerada a mais difícil do Brasil. Me virei com gestos e mímicas para me comunicar.

Chico um uruguaio super legal e guia da turma me ajudava nessa parte.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_07

Preparei uma janta e fiquei por horas, mais dando risada do que conversando com os gringos.

O frio estava castigando a gente naquela noite, então entrei para a barraca me esconder dele e descansar um pouco.

PARQUE NACIONAL DE ITATIAIA, FRIO E TUDO PRETO NA VOLTA

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_08

A dúvida pela manhã era entre conhecer o parque ou pedalar por 80 km em sua volta. Fiz muito bem ter escolhido o parque, ele é lindo!

Chegar até ele foi uma luta, 21 km de ataque a todo momento, um misto de subida de serra e estradão de terra. A parte boa são sempre as belíssimas paisagens montanhosas, incluindo a radiante Serra Fina como destaque do trajeto.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_09

Na portaria são cobrados R$ 16,00, um dinheiro justo e muito bem gasto. É possível acampar na base do parque, no Abrigo Rebouças, mas é necessário reservar antes. À partir do abrigo só é permitido ir caminhando pelas diversas trilhas: Agulhas Negras, Pedra do Altar, Prateleiras, Couto, Cachoeira do Aiuruoca e outras. Algumas são obrigatória a presença de guias.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_10

Deixei a bike no abrigo, troquei as sapatilhas por um par de botas de trekking que eu levei comigo e decidi por encarar os 2.665 metros de altitude da Pedra do Altar.

No cume da pedra, pude desfrutar de incríveis paisagens de vales e cordilheiras de montanhas, e de uma sensação inexplicável que esse contato com a natureza trás para a nossa alma.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_11

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_12

 

O parque é bastante frequentado por escaladores, existem diversas vias de escalada por ali. Da Pedra do Altar, eu conseguia avistar alguns pequenos pontos coloridos se movendo no pico do Agulhas Negras.

A volta para o camping foi meio traumática, eu não achava que iria voltar tarde e não me preparei para isso. Fez muito frio e eu ainda tinha a volta toda, 21 km agora só de descida.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_13

Sai do parque com o céu ainda claro, mas a escuridão me pegou no meio do caminho. Não sentia meus dedos para apertar os freios, não enxergava um palmo na minha frente, o vento batia forte cortando os meus lábios e a pior parte era que eu não tinha nenhuma iluminação comigo.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_14

Caminhões e carros passavam por mim na serra com aquelas buzinadas de fazer doer a cabeça. Qualquer desatenção minha poderia ser fatal.

Quando cheguei ao camping a primeira coisa que fiz foi tomar uma ducha quentinha e entrar para barraca, tirar aquela tensão que eu estava e me aquecer.

Pelas 8h da manhã todos já estavam de partida no camping, eu como sempre fiquei por último.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_15

Conheci uma mulher já de meia idade e uma imensa vontade de criar um blog de aventuras dedicado a pessoas da terceira idade. Ela estava sozinha e de saída para conhecer o parque.

Eu e o Chico conversamos por horas naquela manhã, ele me contou um pouco sobre suas aventuras e uma viagem de bike que fez pela América do Sul.

EI VOCÊ ESQUECEU ISSO!

Eu tinha que seguir viagem, então me despedi do pessoal do camping, terminei de arrumar minhas coisas, tomei um café e comecei a pedalar, dessa vez até Alagoa.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_16

Parei na mesma lanchonete que comi quando cheguei na cidade e para comer também pedi o mesmo lanche. Depois de encher a barriga, fui para estrada encarar 40 km de serra.

Tudo estava correndo bem, e quando eu já estava pedalando, pronto para dedicar horas suadas em cima da bike, ouvi umas buzinas atrás de mim.

Era a mulher da lanchonete com algo na mão, gritando – Ei você esqueceu isso!

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_17

Era a minha carteira, com meus documentos e cartões.

Agradeci imensamente a mulher, que por bondade pura pegou seu carro e foi me encontrar na estrada. Pude perceber que ainda existem pessoas boas nesse mundo.

Passei o caminho todo pensando nisso. Parecia que algo ñ estava me deixando continuar com essa aventura.

SERRA DO PAPAGAIO

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_18

Eu estava na estrada, encarando aquela serra cheia de sobe e desce quando avistei placas para a Serra do Papagaio. Havia planejado passar por ela e fazer alguns registros.

Pedalei por horas tentando encontrar o acesso ao Parque mas não consegui, o dia acabou indo embora e eu tinha que encontrar um lugar para passar a noite.

Mais alguns quilômetros e um vale lindo de montanhas clareou na minha frente, dei uma analisada no local e parecia perfeito para montar acampamento.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_19

Preparei a janta dentro da barraca mesmo, pois estava muito frio. Na cidade as pessoas haviam me dito que a previsão era para 8ºC na madrugada. Então tratei de me agasalhar muito bem nessa noite.

A Sra. Aventureira amanheceu coberta por geadas. Aquele frio todo realmente aconteceu.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_20

Eu já acordado nem fiz questão de levantar, fiquei quietinho até o sol aparecer e mudar a temperatura do ambiente.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_21

No caminho eu peguei uma descida bem íngrime e grande parte dela era de umas pedras parecidas com aqueles olho-de-gato. Meus freios trabalharam muito bem ali.

O acesso ao Parque estava a poucos quilômetros de onde eu havia passado a noite, mas não fui até ele. Optei por pedalar e ir para cidade almoçar.

SRA. AVENTUREIRA NÃO ESTÁ LEGAL

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_22

Em Alagoa, fui em busca de um restaurante para comer de verdade.

Tudo estava perfeito até esse momento. Comi bem, ganhei paçocas e abasteci as caraminholas. O difícil foi levantar da mesa.

Pedalando não muito longe a Sra. Aventureira começou de novo a apresentar problemas. Quando eu colocava forças nos pedais, parecia que eles giravam em falso e isso foi se agravando.

Depois de mais alguns quilômetros um outro problema parecia ter aparecido. Um barulho de algo batendo estava me incomodando muito.

Parei para entender o que era e vi que a pinça do freio traseiro estava solta e parecia estar quebrada, o que confirmei quando olhei mais de perto.

Juntei a parte trincada na outra, apertei o parafuso e consegui parar com o barulho, mas meu freio traseiro estava comprometido.

Esse problema eu consegui amenizar. Agora o problema nos pedais só foi piorando com cada subida, até que cheguei ao ponto de descer da bike e empurrar para não ficar completamente sem os giros, o que me fez ficar na estrada por mais uma noite.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_23

O sol já estava baixando nas montanhas e Aiuruoca estava a 24 km. Nas condições que eu me encontrava a escolha mais inteligente a se fazer era parar em algum lugar, montar acampamento e esperar o dia amanhecer, eu não iria achar nenhuma bicicletaria antes de chegar na cidade.

Por todo momento eu seguia sempre ao lado do Rio Aiuruoca. Em Itamonte um senhor havia me dito que muitos aventureiros acampam na beira do rio.

Foi bem fácil achar um lugar, um terreno descampado com o barulho do rio de trilha sonora para aquela noite.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_24

Acabei nem jantando, o almoço em Alagoa me sustentou muito bem e segurou a fome por muito tempo.

PARTIU EMPURRAR A BIKE

Tentei levantar bem cedo no dia seguinte, até consegui, mas voltei para a barraca e fiquei lá por um tempo.

Me virei com um café rápido e levantei acampamento. Consegui água em uma fazenda próxima.

Troquei as sapatilhas pelas botas para ficar mais confortável e fui para estrada, dessa vez empurrar e não pedalar a Sra. Aventureira.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_25

Foram 20 km de estrada, quase nada de subidas e nas descidas eu pulava na bike e ia só com o embalo.

Não foi nada fácil, mas com certeza me rendeu uma boa experiência e um bom momento para decidir sobre parar por ali e voltar para SP.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_26

Já na cidade fui almoçar e atrás de informações para ir embora. Havia 2 opções, ir até Caxambu pegar um ônibus na Rodoviária ou esperar até 00h e tentar vaga em um ônibus que passaria em Aiuruoca com destino a SP.

Decidi por Caxambu, mas estava a 42 km e eu não conseguia pedalar. Corri atrás de taxi e nada. Até que me indicaram uma pessoa que fazia viagens entre as pequenas cidades da serra, o Fabinho, que me cobrou 100 dinheiros para levar eu e a Sra. Aventureira em um fusquinha todo ajeitado. Achei muito caro, mas era minha única opção. Esperar pelo ônibus era algo incerto, ele só passa uma vez por semana e sempre lotado.

UM COLETE REFLETIVO NA ESTRADA

O fusquinha do Fabinho foi que foi, trocamos poucas palavras. A Sra. Aventureira estava toda desmontada no banco traseiro.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_27

De longe eu avistei um ciclista na estrada com um Colete Refletivo, um senhor de meia idade com um aspecto muito cansado – Mas tarde ele iria se sentar ao meu lado no ônibus.

Caxambu é uma cidade muito bonita, já bem civilizada. Muitas pessoas na rua aproveitando o lindo dia que fazia naquele domingo, uns dos principais atrativos da cidade, o Parque das Águas estava lotado. Os Teleféricos que levam até o Mirante de Caxambu estava em constante movimento.

Consegui comprar passagem para 16h30, por pouco ñ encontrava mais e o próximo ônibus seria apenas às 23h.

Enquanto esperava na plataforma da Rodoviária, 4 ciclista apareceram pedindo informações, eles estavam cheios de alforjes e à 3 dias na estrada também fazendo o Caminho dos Anjos. Lamentaram o meu ocorrido, disseram que tiveram problemas com uma bike, mas nada tão sério e conseguiram seguir viagem.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_28

Algumas pessoas com mochilas cargueira nas costas chegaram em uma espécie de caravana. Pareciam também estar realizando alguma aventura pela serra. Achei muito legal isso, inclusive o cara que parecia ser o guia da turma, eu havia visto parado em um ponto de ônibus na cidade de Itanhandú.

O ônibus chegou e todos se apressaram para colocar as malas no bagageiro e subir para seus assentos.

Como da outra vez, tirei apenas a roda da frente e a bolsa de guidão da Sra. Aventureira. Dessa vez eles não me pediram documento da bicicleta.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_29

Depois de um tempo já dentro do ônibus, aquele Sr. de Colete Refletivo na estrada sentou do meu lado. Não me contentei e puxei assunto, ele com um tom de ciclista bem experiente disse que estava participando de um AUDAX de 600km, e a 2 dias na estrada só pedalando estava desistindo depois de apagar algumas vezes em cima da bike por cansaço.

Essas provas exige muito dos ciclistas, são disputas de altíssima resistência e orientação em estradas, visando sempre o bom desempenho e superação, pedalando cada vez mais longe.

No caminho pegamos um trecho com muito trânsito, o que fez com que chegássemos em SP com quase 2 horas de atraso.

O plano para a segunda edição do Rotação Mantiqueira não foi concluído, ficou com um gostinho de incompleto. Essa aventura me mostrou que mesmo estando um passo a frente dos problemas, eles podem sim acontecer e fazer mudar o contexto da história.

ROTACAO-MANTIQUEIRA-02_30

Trouxe pra casa mais experiência, e estarei mais preparado para as próximas.

Até breve!

DADOS

TRAJETO – SERRA DA MANTIQUEIRA

(Passa Quatro > Itanhandu > Itamonte > Parque Nacional de Itatiaia > Parque Nacional Serra do Papagaio > Alagoa > Aiuruoca)

PERÍODO – 4 dias

DISTÂNCIA – 165 Km

ALTITUDE – 2450 metros

HORAS PEDALANDO – 14 horas e 50 minutos

DIFICULDADE – 5/10

 

Fotos e texto por Leo Ferreira

Anúncios