Fazia um tempo que estava interessado em pedalar na região da Serra do Espinhaço. Em uma conversa com o Fabio Tux decidimos embarcar na roubada. Procuramos alguns relatos e encontramos poucas informações. No norte de Minas Gerais tem um parque nacional praticamente esquecido, é o Sempre Vivas. A ideia era sair pedalando de Diamantina em um circuito circular e incluir o parque no roteiro.

bikepacking sempre vivas serra do espinhaço foto arturo vieira (1)

Começamos as pesquisas e nada de achar estradas ou relatos de ciclistas na região, riscamos possíveis caminhos no Google Earth, juntamos as tralhas e viajamos para Diamantina.
O primeiro dia da viagem queríamos chegar em um local chamado Macacos, um vilarejo com 4 casas e uma igreja. Acabou que pedalamos apenas 40km e paramos em um povoado chamado São João da Chapada. Foi um dia com 10km de asfalto e o restante terra. Acabamos encurtando pois começamos a pedalar na hora do almoço e eu estava passando mal. O que foi bom para descansar e começar o dia seguinte zerado. Dormimos na pensão do Sr. Baginha, uma casa simples e com comida boa. O preço era de R$ 25,00, pensão completa. Acabamos ficando ali mesmo pois sairia mais barato do que cozinhar e armar a tarp. Levando em consideração a minha situação era o melhor a se fazer. O Sr. Baginha disse que morou em São Paulo e em qual quer lugar que fossemos poderia citar o nome dele que seria reconhecido. Testamos isso mas não funcionou. Risos.

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O segundo dia fomos sentindo mais a Serra do Espinhaço e o cerrado. Estradões de terra vermelha, vegetação baixa e lindas formações rochosas. Estávamos ansiosos pois esse era o dia de entrar no Pq. Nacional Sempre vivas. De São João da Chapada até Macacos foram 22km de muito sobe e desce. O tempo permaneceu nublado mas bem quente. Em Macacos paramos em uma casa para pegar um pouco de água. A simpatia mineira não faltou, claro. A senhora convidou para entrarmos e tomar café. A prosa foi longa. Contou sobre a falta de interesse do poder publico no parque, falta de interesse do Ibama, sobre a falta de indenização após a criação do parque, pessoas que ficaram sem trabalho e por aí vai. Para fechar a conversa falou da mineradora que vem detonando o entorno da serra e o pessoal agressivo que vem trazendo isso. Vimos algumas placas dizendo ser propriedade particular. Triste ver que esse Brasil ainda tem muita exploração. A conversa foi longa e boa mas tínhamos que seguir.

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Era cerca de 11h e o sol estava queimando sem dó. Erramos um trecho da estrada e voltamos pois acabamos entrando em uma fazenda, logo conseguimos encontrar a estrada correta e fomos pedalando até onde deu, cerca de 2km. Empurramos as bikes por umas duas horas até que chegamos em um planalto com muitas formações rochosas e conseguimos pedalar mais alguns quilômetros. Pensávamos que teria alguma sinalização e logo entendemos as linhas brancas que enxergamos pelo satélite, eram estradas de areia. Depois de ter avançado umas 3h em um misto de empurra e pedala nós estávamos parados em uma sombra, com pouca água e decidindo qual estrada seguiríamos o celular do Tux começou a receber mensagens. Demos sorte de ele ter esquecido o celular ligado e milagrosamente deu um ponto de sinal, com isso conseguimos dar uma analisada em imagens de satélites para nos orientar. Empurramos mais uma hora e encontramos um senhor de moto. Ele disse que vinha da casa dos guarda parques e que de levaria uns 30minutos, isso nos animou e empurramos as bikes com mais vontade até conseguir chegar no local. Lá conseguimos pegar mais água, comer um pouco e colher algumas informações. Eram muitos guardas e muitas informações divergentes, deram algumas dicas valiosas e ficaram surpresos em nos ver de bicicleta ali já que não tinham visto ninguém tentar pedalar essa parte do parque. Ofereceram pouso mas decidimos seguir pois ainda teríamos 2h de luz para aproveitar o dia. Empurramos as bikes mais um tanto e finalmente conseguimos pedalar. Pedalamos por mais 1h até conseguir um bom local para armar a tarp e dormir. Preparamos uma comida e capotamos. Durante a noite fomos atormentados por mosquitos. Esse foi o dia mais perrengue, e acho que nunca sofremos tanto para fazer 40km.

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Levantamos cedo, recolhemos acampamento, café tomado e saímos animados. Os guardas já tinham avisado que em alguns momentos não teríamos estradas para pedalar, não encontraríamos ninguém e depois do planalto deveríamos descer a serra mesmo achando que estivéssemos no sentido errado. O dia estava lindo, cerrado, formações rochosas e algumas sempre vivas para florear o caminho. Foram 20km predominantemente de descida. Trechos de single track, valas, pedras soltas, pedras grandes, riachos, erosões, areia e tudo o que pode imaginar. Super divertido e ali tivemos a certeza que fizemos bem em ter ido mountain bike. Depois de uns 12km de termos iniciado o pedal encontramos uma casa mas não tinha ninguém. Aproveitamos para dar uma hidratada e depois seguir. Quase chegando em Corumataí encontramos o dono da casa, Senhor Nico Pinheiro que vive ali de maneira plena e isolada do mundo moderno há mais de 20 anos. Vai até a cidade uma vez por semana que é uma viagem de algumas horas à cavalo. Ele confirmou que estávamos corretos e iniciamos uma descida super técnica com pedras soltas, lembrei de quando competia de donwnhill. Diversão total. Chegamos em Corumataí varados de fome e quase na hora do almoço. Encostamos no único bar que tinha na cidade e mandamos ver no PF. Ficamos ali decidindo o que iriamos fazer e tentando descobrir a quilometragem, até porque a viagem já estava quase totalmente fora do que pensávamos e isso só deixava melhor. Um senhor, meio maluco, nos convenceu a ficarmos na cidade e ofereceu sua casa para passar a noite. Aceitamos e ficamos curtindo o dia com os locais de Corumataí.

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Dali para frente era começar a voltar para Diamantina, estávamos saindo da área do parque e entrando em estradões de terra. Nos deram uma informação de quilometragem errada e acabamos parando em uma cidade chamada Rodeador de Monjolos. Foram 70km com muita subida e um sol de castigar, a temperatura chegou perto dos 40ºC. Tive um furo no pneu e uma baita dificuldade para encaixar o pneu pois a roda é tubeless e com isso perdemos quase uma hora. Nos perdemos, pedalamos uns 14km na direção errada e subindo até um planalto, por sorte encontramos um caminhão pipa que leva água para algum local e nos deu uma luz de como chegar no caminho correto. Já que subimos um bom tanto na direção errada pudemos descer isso na direção correta e por sorte saímos dentro de uma fazenda onde nos abastecemos de água e mais algumas informações para chegar onde gostaríamos. Conseguimos parar na beira de um rio para fazer um lanche da tarde e na hora de sair tive mais um furo, malditos espinhos do cerrado. Chegamos quase anoitecendo em Rodeador de Monjolos. Dia longo, muito pó, subida e castigados pelo sol. Na cidade encontramos uma pensão completa por R$ 50,00. Na manhã seguinte mais um problema com pneu. Ali passa um trecho da Estrada Real mas é pouco turístico, as estradas e os entornos são lindos e vale muito a pena uma visita com mais calma. O pessoal na região é super acolhedor e curioso pois ali quase não passa ciclista.

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Para o último dia pedalamos 62km praticamente sempre subindo, saímos de 600m e fomos até quase 1500m de altitude e depois descemos até a cota dos 1200m que é a altitude de Diamantina. Nada de errado e esse foi o dia de socar a bota, fizemos o mais rápido que pudemos e parando algumas vezes para fotos, claro. No período da manhã eu não rendia nada e o Tux sempre na frente no período da tarde eu passei a render e o Tux ficou para traz, curioso isso, acabou que um puxava o outro. Chegamos em Diamantina por volta das 16h e muito felizes com o resultado. Linda região de serra, vegetação e formações típicas do cerrado um pouco mais habitada pela facilidade de acesso e proximidade de Diamantina. A região é muito bonita e pouco conhecida. Opções para banhos de rios, cachoeiras, trekkings e bicicleta. Recomendo muito quem quiser fazer um pedal mais rústico, viagem de baixo custo e muita aprendizagem. Não encontrei nenhum relato de bike cruzando o Parque Nacional Sempre Vivas, se alguém já foi eu gostaria de conversar pois em determinado ponto acreditamos que uma das estradas levaria a outro caminho e tenho interesse nisso. Região perfeita para bikepacking, aventura pura e curtição.

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Dados aproximados

Dia 01
Diamantina – São João da Chapada

40km
¼ asfalto
600m ascensão total​

Dia 02
São João da Chapada – Pq Nacional Sempre Vivas
40km
¾ terra, ¼ areia/pedra
900m ascensão total

Dia 03
Pq. Nac. Sempre Vivas – Corumataí
20km
¾ pedra/terra/areia, ¼ estrada de terra
300m ascensão total

Dia 04

Corumataí – Rodeador de Monjolos
70km
4/4 terra
1.200m

ascensão total

Dia 05
Rodeador de Monjolos
62km
¾ terra, ¼ asfalto
1.500m ascensão total

 

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