“Voltando com os posts colaborativos de outras pessoas mostrando suas aventuras, desta vez, Leo Ferreira vai contar sua viagem em bikepacking pela Serra da Mantiqueira”

Serra da Mantiqueira… um lugar incrível, mágico e transformador. Destino certo para amantes de aventuras outdoor.

Montanhas a perder de vista divididas entre São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. O ponto mais alto é chamado de Pedra da Mina, a 4º maior montanha do Brasil, com 2798 metros de altitude. Não dá para subir de bike, eu acho, ou talvez pessoas com alto nível em aventuras malucas conseguiriam. Mas essa pessoa não sou eu! Eu estou pedalando o ROTAÇÃO MANTIQUEIRA, meu objetivo é conhecer toda a Serra em uma única marcha e tentar descobrir o segredo de suas montanhas. Ou seja, isso não precisa ter um fim.

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A PREPARAÇÃO

Em dias normais eu sobrevivo pedalando na cidade de São Paulo, aquele caos urbano. A bicicleta torna isso muito mais agradável, me faz ganhar tempo, comodidade e inúmeros benefícios no dia-a-dia.

Nos outros levo uma de aventureiro, sempre que consigo somar tempo livre e dinheiro, dou uma fugida da cidade grande a procura aventuras. Isso já faz parte da minha vida a um tempo, em uma delas quando fui a Cambará do Sul — RS, aluguei uma bike para conhecer os Cânions da cidade. Aquilo me fez entrar em uma neura e eu não queria mais a bike só como meio de transporte e lazer, queria leva-la comigo em minhas viagens.

Então eu passei meses montando uma bicicleta mais robusta e equipada para isso, a Sra. Aventureira. Durante esse tempo comecei um série de treinamentos e a planejar rotas, tive lesões que pareciam que nunca iriam se curar. Estava difícil isso ter um ponto final, até a temporada de montanhas abrir e eu conseguir marcar minhas férias.

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VAMOS, A HORA É ESSA!

Tratei de dar uma consultada no tempo para não correr o risco de pegar uma tempestade e ai planejar a partida. Eu tinha a semana do dia das mães com uma boa previsão de tempo, a próxima seria apenas chuva, e ai voltaria a trabalhar. Senti em passar o dia da mães longe da minha, mas aqueles seriam os melhores dias que eu teria livre e por um bom tempo.

Minha vontade de ir era muita e sempre sinto aquele frio na barriga como se fosse a primeira vez, na verdade de certa forma foi. Dessa vez eu estava com algumas bolsas amarradas na bike, ferramentas e mantimentos para alguns dias, barraca, roupas e um trajeto. O dia amanheceu com um tempo cinza e uma leve brisa, típico de um outono em São Paulo. Peguei uma carona com meu velho, que iria trabalhar, e fomos até a Rodoviária do Tiete.

Meu ônibus era às 7h30 com destino a cidade de EXTREMA, extremo sul de Minas Gerais a terra do Pão de Queijo. Tudo ok no embarque, desmontei apenas a roda da frente e amarrei no quadro. Eu mesmo coloquei a bicicleta e as bolsas no bagageiro por garantia. O caminho foi bem rápido, na verdade eu dormi em boa parte dele. Por voltas das 11h00 eu já estava em meu destino. Identifiquei minhas bagagens e comecei a tarefa de montar a bike. Aperta daqui, puxa dali e pronto! A Sra. Aventureira estava parecendo um burro de carga, pronta para se aventurar pelas montanhas.

Pedalando pela cidade dei uma parada para comer alguma coisa reforçada e também conseguir algumas informações.  Uma das melhores partes dessa aventura, foi ver o olhar das pessoas dizendo: “O que esse cara está fazendo sozinho?; Que cara doido!” Placas indicavam o caminho para a Serra do Lopo. Uma subida com quase 10km e de grande desgaste físico. Ali deu para sentir o começo dessa aventura e estava acontecendo de verdade. No final havia algumas opções, seguir para cidade vizinha Joanópolis, pegar uma saída para a conhecida rampa de Vôo Livre, seguir caminho para a Rota dos ventos, um percurso onde existe uma competição de Mountain Bike chamada Desafio dos Ventos, ou adentrar na mata e seguir por trilhas para alguns mirantes.

 

PICO DOS CABRITOS

Logicamente eu me dei mal, entrei na mata e sai em algumas trilhas que não eram para bike. Precisei empurrar até o alto do pico, onde parei para um lanche e admirar a imensidão de montanhas que me esperavam. Enquanto descansava, avistei um lugar perfeito para montar o acampamento e passar a noite, chamado de Pico dos Cabritos e seus 1.470 metros de altitude. Cheguei antes de anoitecer e pude aproveitar um belíssimo pôr-do-sol, que parecia até uma recompensa, um presente da Mantiqueira.

 

Um problema com o fogareiro nesse dia me fez ficar sem gás por toda a viagem. Os lanches sempre caiam bem e me salvavam. Naquela noite eu tive a cidade sobre meus pés. Toda iluminada, e bem pequena vista lá de cima.

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Levantei bem cedo no dia seguinte, tomei um café e comecei a desfazer o acampamento. Eram cerca de 2h ajeitando tudo na bike. Na verdade eu só me preocupava com o tempo para não chegar de noite no próximo ponto e precisar montar a barraca no escuro. Segui em uma estrada de terra por 5 km mais ou menos até chegar na cidade. Aproveitei para almoçar, carregar o celular e colher informações. Com isso acabei pegando a estrada já bem tarde.

 

O trajeto liga EXTREMA a MONTE VERDE por 45 km em estrada de terra e também asfalto. Subidas bem pesadas, inclinações de travar as pernas e uma altitude de aproximadamente 1.420 metros. A estrada de terra fica às margens do Rio Jaguari, por lá existe a Rota das Águas, a Prainha, ótimo local para quem gosta de rafting e tem algumas quedas de cachoeira. No principal acesso a cidade começa o asfalto e também um trecho duríssimo de Serra. Sem compromisso com a performance, por muitas vezes eu precisei descer e empurrar a bike.

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O LUGAR HOSTIL

Quando me dei conta, a escuridão já estava por tomar todo o céu e eu ainda não tinha encontrado a cidade e muito menos o camping que planejava ficar. Então no alto da serra encontrei um lugar apropriado para acampar, que eu carinhosamente o apelidei de “o lugar hostil”. Um emaranhado de madeiras e árvores cortadas. Não pensei duas vezes e fui logo montando meu abrigo. Nas noites de outono faz muito frio na Serra, e eu estava bem preparado para isso. Tinha comigo roupas térmicas, luvas, touquinha e tudo mais. Frio não foi o meu perrengue nessa viagem, foi a fome. Meu refil de gás do fogareiro havia vazado na noite anterior e com muito custo saia uma fogueira para preparar a janta, um strogonoff liofilizado pra lá de bom!

 

CAMPING, CHUVA E WIFI

Existem muitas opções de pousadas e chalés na Serra, mas acampar é um dos requisitos para o ROTAÇÃO MANTIQUEIRA. Pela manhã, pedalei alguns quilômetros e encontrei o camping Recanto dos Bambus, lá eles oferecem almoço e tem o café da manhã já incluso na diária. Fiquei por 2 dias nesse camping devido a chuva. No domingo dia das mães, choveu e fez frio o dia todo. Em uma folga da chuva eu fui a cidade almoçar e comprar suprimentos. MONTE VERDE é uma cidade pequena bem no alto da Serra, tem um cenário bem rústico e turístico.

 

 

Eu estava meio inquieto no camping, não era pra eu estar ali. Mas devido a instabilidade do tempo, esperar ele se firmar era a melhor opção. Mas isso não me fez deixar de fazer um reconhecimento de área. Peguei a bike e achei Single Track com muita lama, de graça eu cai e sujei toda a roupa, rs.

 

O frio fez o pessoal do camping fazer uma fogueira durante a noite e ficar horas jogando conversa fora. Me ajeitei com uma janta rápida na cozinha e meio sorrateiro entrei para a barraca dormir. Já em tempo de partir, o céu amanheceu limpo. Todos do camping já estavam com os motores ligados e levantando acampamento. Ouvimos um grito da cozinha dizendo: “o café está na mesa!” Bolinhos de chuva, pão e queijo bem servidos e com um gostinho especial de comida mineira. Claro que eu fiz uma marmitinha para mais tarde, rs. Eu fui o último a sair e tinha 50 km para rodar, desta vez até GONÇALVES. “Agora é só baixada, você vai gostar!”  Foi o que me disseram. Desci toda a serra que havia subido ate MONTE VERDE. Uma delicia, só ladeira abaixo, e depois segui o tempo todo por estradas de terra. Teve vaca interditando a estrada, capivaras correndo, e o mais legal de tudo foi ver duas crianças voltando da escola e apostando corrida de bicicleta. Fiz uma parada para lanchar, comprar algumas frutas, pão e mortadela. Parece até que foi planejado, pois eles foram a minha janta nesse dia.

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AS NUVENS NÃO ME DEIXAM DESCER!

No caminho eu encontrei placas que indicavam Acampamento Pedra do Jair. Uma formação rochosa com 2.000 metros de altitude. Não tinha muita inclinação, mas a trilha era bem longa, com muitas curvas e um terreno muito irregular, pedalei bem até lá. Não cheguei ao cume e acho que nem teria lugar para montar a barraca. Cheguei em um terreno descampado na base da pedra, uma altura já considerável e com muito vento. Fui logo me apressando para montar o acampamento e tentar aproveitar o que restava do pôr do sol. Perto das 21h, levantei de um cochilo e fui ver o céu, com muitas estrelas e iluminando toda a noite, e a lua linda roubando a cena. Ensaiei uma fogueira para jantar, mas tinha muito vento e o tempo estava muito úmido, tudo que eu encontrava para usar como lenha não sustentava o fogo.

 

Amanheci por cima das nuvens, e fazia muito frio! Bem distante eu via uma chuva se aproximando, parecia que nem iria me pegar. Eu não queria entrar em uma roubada então decidi entrar para a barraca e esperar ela passar. Foi rápida e fraca, não chegou nem a molhar.

 

As nuvens demoraram para subir, já beirava as 11h quando consegui identificar a trilha pra ir embora.Meu destino para esse dia era a cidade de SÃO BENTO DO SAPUCAÍ, à 25 km de GONÇALVES, lá seria o término da primeira edição do ROTAÇÃO MANTIQUEIRA. Conheci um biker local quando parei para um almoço em GONÇALVES, foi quando fiquei sabendo que a entrada para a descida campestre que estava no roteiro havia ficado para trás. Essa descida é bastante conhecida pelas lindas paisagens até chegar em São Bento. Para pega-lá novamente, eu precisaria subir toda a serra por 6 km. Mas o biker me ensinou um novo caminho, com um Single Track bem maneiro de fazer.

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São Bento seria a última cidade, de lá eu tomaria o ônibus e voltaria para SP. Eu tinha 2 opções de hospedagem para pernoitar em SÃO BENTO DO SAPUCAÍ, uma era o Camping dos Amores que eu já me hospedei em outra aventura pela cidade, quando conheci a Pedra do Baú, e o outro era um refúgio de montanhas, indicado pelo pessoal do meu trabalho. Pelo horário, por voltas das 18h, o camping seria a melhor escolha, mas ficava a 5 km da cidade e apesar do cansaço eu ainda tive energia de chegar até lá. O dono do camping me reconheceu e liberou o acesso a cachoeira, onde me instalei da primeira vez que estive por lá. Acabei montando a barraca no mesmo lugar!

HORA DE VOLTAR

Eu precisava estar na rodoviária às 9h45. Consegui acordar cedo, arrumar tudo e chegar a tempo. Mas não consegui embarcar. O ônibus só para na estrada, e de forma alguma o motorista deixaria eu subir com a bicicleta. Eu já devia saber disso, pois da outra vez foi a mesma coisa. Então precisei pedalar por mais 20 Km até a cidade vizinha PARAISÓPOLIS, e lá pegar o ônibus 12h30 dentro da garagem.

O motorista ainda perguntou sobre a nota fiscal da bicicleta que eu não tenho. Disse algumas bobagens de fiscalização. Particularmente, eu não vejo necessidade de tê-las, mas vou precisar providenciar para evitar confusões nas próximas. Não precisei nem desmontar as bolsas, apenas tirei e amarrei a roda da frente no quadro, abaixei o selim e coloquei a Sra. Aventureira no bagageiro.

Quando cheguei em SP, já estava pensando quando seria a próxima edição do ROTAÇÃO MANTIQUEIRA. E que gratidão era o sentimento dessa viagem. Por pedalar na Serra, e por ter conseguido de uma forma tão especial, iniciar meus pedais aventura e em um lugar incrível!

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REFLEXÃO

O que te faz ser que você é? Suas escolhas?

Escolher acordar, trocar de roupa, tomar um café e ir trabalhar. Isso é necessário para se ter o mínimo de conforto, um conforto que você escolheu ter. Mas vez em quando, quando conseguir aqueles tão sonhados dias de folgas, aquelas férias acumuladas, escolha fazer diferente…não acordar no mesmo lugar, não dormir no mesmo lugar, não fazer as mesmas coisas em todos os dias. Mude sua rotina, vai te fazer bem…e não julgue os outros por suas escolhas. Eu escolhi partir, sair da minha zona de conforto, ser invisível mesmo que só por uns dias.

PERÍODO

6 dias – 11/05/2017 à 17/05/2017

CIDADES CONTEMPLADAS

• EXTREMA

• MONTE VERDE

• GONÇALVES

• SÃO BENTO DO SAPUCAÍ

• PARAISÓPOLIS

QUILÔMETRAGEM ACUMULADA

160 km

CHECKLIST:

– BIKE

• Miyamura – aço

• Garfo Rígido – Mônaco

• Rodas – Aros 29 Vzan

• Cubos Quando

• Pneus 29×2.1

• Freios – Shimano Deore

• Pedais Clip – Shimano

• Relação Single Speed – 32×16

• Kit de ferramentas e manutenção

– BAGS

• Bolsa de Selim

• Bolsa de Guidão

• 2 Sacos estanques

• Bolsa de quadro

• Bolsa para celular

• 2 Porta-garrafas

– ACAMPAMENTO

• Barraca Técnica

• Saco de dormir

• Travesseiro inflável

• Isolante Térmico

• Fogareiro

• Comidas Liofilizadas e Água

• Café, Garrafa Térmica e Xícara

• Fogareiro e Kit de cozinha

• Kit de emergência

• Canivete

– VESTIMENTO

• Roupas Térmicas – Segunda Pele

• Jaqueta Corta-Vento

• 2 Camisas Dry

• 1 Bermuda jeans, 1 casual

• 2 Underwear ciclismo

• 2 pares de meias

• Sapatilha

• Capacete

• Chinelo

• Toalha de banho em Microfibra

• Nécessaire p/ higiene pessoal

– EXTRAS

• Moleskine, lápis e borracha

• Guia de trilhas cicloMANTIQUEIRA

• Celular e carregador

• Lanternas e pilhas

• U-Look

• Fita Elástica

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