Neste post quem está falando é o Vicente Siufi, ex-colega e amigo de pedaladas do blog, que já está com sua viagem em bicicleta com data de partida definida. Vamos acompanhar o seu preparo para viver em cima da bicicleta por tempo e destino indeterminado. Hoje Vicente vai relatar uma viagem teste de final de semana.

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Eu, minha companheira e nossa cadela sairemos para viajar em bicicletas na segunda metade desse ano. Nosso intuito é não ter pressa, não ter um destino fixo, evitar ao máximo as cidades grandes e viver bem. Infelizmente minha companheira não pôde se fazer presente nesse feriado, então eu e o Ogro combinamos de ir para o meio do mato, experimentar equipamentos e adquirir experiência. Para mim, esse final de semana foi o segundo teste com a bicicleta carregada com as 5 bolsas; o primeiro fora do asfalto.

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Planejamos a rota e fomos treinar o “modo sem pressa”, sem destino fixo e vivendo bem, sem (muito) desconforto, sem fome, sem sede, então abusamos da capacidade de carga e fomos bem munidos. Eu levei duas caramanholas térmicas de 750ml, mais uma super térmica de 473ml, mais um reservatório de 4L; o Ogro levou uma caramanhola de 700ml e uma garrafa de 1.5L, ou seja, tínhamos 8.173 litros de água. Levamos também arroz, massa, polenta, purê de batatas instantâneo, cuz cuz, tomate desidratado, cenoura, alho, cebola, temperos…

Partimos de Porto Alegre às 7h30 de sexta-feira com o intuito de chegar em Porto Batista, mesmo sem saber o que faríamos lá, nem onde dormiríamos. A previsão do tempo não era das melhores: certeza de chuva em algum momento do dia. Saímos com um céu cinza e sem vento: um tempo bem ameno, agradável para pedalar.

Saímos de Porto Alegre pela Rodovia do Parque (BR-448), que não me agrada muito pelo cinza predominante e pelo trajeto ondulatório nada estratégico, mas percorremos apenas 10km ali e foi super tranquilo. Logo na primeira ponte, paramos para fazer o primeiro lanche: o Ogro comeu um abacate puro, que colhemos na rua uns 15 dias atrás. Pulamos para fora da pista, descemos um pequeno barranco, passamos por baixo do viaduto na Rua da Barca (Canoas – Mathias Velho) e fomos cruzar a primeira ponte férrea do dia. Ao avistarmos a antiga construção, tentamos desviar dela a fim de encontrar alguma estrada de chão paralela que pudesse ser uma alternativa, mas não obtivemos êxito. Retornando ao ponto de onde entraríamos nos trilhos, ouvimos, em alto e bom tom, o trem se aproximando: sorte a nossa que evitamos os trilhos de cara, se não daríamos de frente com o trem. Os vagões eram muitos e esperamos uns minutos até o último passar e liberar os trilhos para nós. O meio dos trilhos era o único lugar cogitável para atravessar a ponte, o problema é que as pedras soltas e alguns tocos de madeiras velhos e quebrados impossibilitaram que fizéssemos a travessia pedalando (o Ogro tentou diversas vezes, mas conseguiu percorrer poucos metros). Empurrar a bicicleta carregada e calcular os passos nos trilhos se tornaram uma missão altamente estressante – eu odeio caminhar. Foram uns 2km caminhando com velocidade máxima de 4km/h… nesse momento estava arrependido de ter saído de casa com tanto peso e de ter escolhido esse trajeto. Eis que, em meio aos trilhos, finalmente vimos uma pequena abertura no mato e utilizamos ela para alcançar uma estrada de chão que nos acompanhava lateralmente desde que cruzamos a ponte.

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Pedalamos mais uns 10km alternando entre estradas de chão e asfaltos, mas tudo bem silencioso e avistando poucos seres humanos – estávamos desfrutando do bucolismo que a vida na capital nos priva. Sem ter a rota traçada no Strava, jamais teríamos conseguido percorrer esses caminhos (obrigado, Luís Eduardo Franke). Depois de dobrarmos à esquerda em um mini beco, adentramos uma fazenda de arroz… murchamos os pneus e nos divertimos muito cruzando cada centímetro dos variados terrenos que percorremos ali. À essa altura, o céu já estava mais limpo e o sol já se fazia presente.

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Para sair dessa fazenda, lidamos com a primeira dificuldade em seguir a rota à risca e tivemos de tomar uma decisão sobre qual caminho seguir: acabamos saindo muito perto da segunda ponte férrea, o problema foi que saímos abaixo dela e, para subir, tivemos de tirar todos os alforjes das bicicletas e subir tudo em várias pequenas viagens: cansou, mas obtivemos sucesso. Antes de atravessarmos, mais uma parada para comer: aproveitei que os alforjes estavam à mão e saquei umas castanhas para comer algo salgado, afinal já era quase meio dia e a fome já não era mais saciada pelas mariolas ou barrinhas de cereal.

A experiência da primeira ponte não trazia muito ânimo para a segunda, mas fomos com mais tranquilidade, afinal já sabíamos o que precisava ser feito. Essa travessia foi mais longa, mas foi menos pior, uma vez que os tocos dos trilhos eram mais  equidistantes, então os esforços eram menores. Mais uns poucos kms andando a – no máximo – 4km/h e conseguimos chegar do outro lado. Sabíamos que seguir nos trilhos não era uma boa ideia, portanto buscamos ao redor alguma saída no meio do mato que nos levasse para a estrada que estava muito perto de nós. Atravessamos um mato (meio) fechado… poucos metros, mas com a bicicleta carregada qualquer transposição não pedalável requer bastante logística e antebraço.
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Dali em diante, estávamos aliviados, já que as piores partes haviam passado e faltava “pouco” para chegarmos no nosso destino final. Pegamos asfalto novamente em direção ao Polo Petroquímico. Cometemos um pequeno erro e acabamos chegando em uma indústria, onde um porteiro nos deu uma direção (de asfalto) que não seguimos, pois logo saindo dali, avistamos uma estrada de chão que, segundo o App Maps.me, seria um atalho. Andamos pouco ali e logo a chuva começou… havia algumas casas e paramos em uma entrada onde havia não só casas, mas galpões também. Conhecemos o Fabiano, funcionário da fazenda de arroz ali situada, que foi muito receptivo e nos cedeu uma mesa em um dos galpões. Almoçamos polenta e cuz cuz repletos de temperos e com molho de tomate: deu sustância e sono, muito sono… o cansaço e a digestão faziam com que quiséssemos apenas deitar e dormir ali mesmo… uma sonequinha de umas 12h seria o suficiente. O tempo foi passando, demos uma olhada nos materiais dos tratores da fazenda, conversamos com o Fabiano e conhecemos seus dois bonitos filhos (uma menina de seis anos e um menino de três) que não paravam de correr. Fui falar com o gerente da fazenda para tentar dormir por lá, mas infelizmente não pudemos porque as terras eram de nove donos diferentes e blablabla…

Saímos em busca de um local para dormir, o relógio marcava 17h23min e a chuva voltou a aparecer, dessa vez por um período maior: saímos da fazenda com casacos impermeáveis e sem um rumo certo. Fomos parando em quaisquer edificações que encontrávamos em busca de informações ou de um convite para pernoitar. Tudo o que nos falavam era para ir até o posto Ipiranga (sempre ele). Acabamos recebendo uma última direção (presente de grego) e entramos no Polo Petroquímico em um sentido que aumentou a kilometragem percorrida debaixo de chuva (com pneus murchos) e demoramos uns minutos a mais para chegar no posto, mas foi bom para testar os casacos (que deixaram a desejar) e foi engraçado dar um balão sem o menor sentido. Felizmente o movimento de carros era ínfimo. Na saída do Polo Petroquímico, com o tempo fechado, a vista das indústrias não era nada bonita.

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Não ter conseguido dormir na fazenda e ir dormir no posto de gasolina me deixou um pouco decepcionado, porque achei que dormir no posto poderia ser ruim por diversos motivos. Chegando lá, a equipe de frentistas foi muito acolhedora e nos encaminhou para o Seu Marino, soldador de lonas de caminhões, que reside atrás do posto. Ele nos ofereceu inicialmente um local para colocar a barraca que era coberto, mas havia goteiras e os pômbos gostavam de utilizar como banheiro. Depois ele nos ofertou o interior de um velho ônibus que estava aposentado. Inicialmente a ideia parecia boa, ainda mais depois que ele conseguiu ligar a luz ali dentro, mas assim que estávamos descarregando os alforjes, descobrimos a presença de marimbondos e, portanto, tivemos de sair dali e dormimos em um terceiro local, super tranquilo e coberto. Essa montanha russa de sensações desde a saída da fazenda até montar o acampamento parece que só aumentou o sono. Jantamos cuz cuz de aperitivo e de prato principal: arroz agulinha integral com tomate seco, cebola roxa e beterraba ralada. Dei-nos o direito de saborear algo líquido que não fosse água: Frukito, o suco de frutas cítricas com mais açúcar em todo o universo. Fomos dormir quase às 22h e apagamos com facilidade.

Levantamos às 7h, pois o Seu Marino começaria a trabalhar às 8h. Desmontamos tudo,fomos preparando o café da manhã (aveia hidratada, banana, uva passa e cacau) e já encaminhando tudo para guardar e partir. Conversamos um pouco com Seu Marino e com seu fiel escudeiro e demos umas risadas. Observamos o mapa e planejamos qual direção tomaríamos: não tínhamos pressa para voltar para casa, mas estávamos muito perto de Porto Alegre e não havia muita coisa no caminho. Saímos do posto com energias renovadas (e pneus cheios). Entramos em uma estrada e, em uma terreno ali perto, paramos para tirar umas fotos. Nesse tempo todo não passou nenhum carro, que coisa boa! Ali o Ogro pôde pedalar sem as mãos no guidão e trocar as marchas apenas clicando nas alavancas do seu trocador. Depois das fotos, seguimos e caímos na BR-386, que coisa ruim! Estrada sem acostamento nenhum… andando na faixa branca e sinalizando para todos os veículos. Nesse momento senti saudade de pedalar bicicletas de pneu fino e aro 700, principalmente da Giant TCR, da minha companheira, que tive o prazer de pilotar por uns meses. Meio sem destino fixo e sem pressa, saímos da BR-386 depois do VeloPark (que barulho horrível daqueles carros) e novamente caímos em estradas de chão vazias e divertidas. Nesse trecho passamos por algumas subidas e gostei de testar as pernas com a bicicleta carregada e a atual combinação de coroa e pinha que estou usando. Fez arder as coxas, mas lembrei das serras que subi com bicicletas de pneu fino e lembrei do quanto gosto de ascender sobre duas rodas.

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Em Nova Santa Rita, encontramos nada mais do que uma praça com estrutura com bancos e mesas de polietileno (plástico “verde”) e ali paramos exatamente ao meio dia. O sol raiava e a pressa inexistia: almoçamos massa miojo com molho de tomate, refogado com cebola roxa, cenoura e alho macho. Nessa refeição tivemos sobremesa: um KitKat Dark para os dois. Seguindo de volta à Porto Alegre, mais uma vez optamos pela estrada de chão ao invés do asfalto: mais bucolismo, poucos seres humanos, silêncio… só coisa boa. Saímos da estrada para explorar um terreno que parecia uma pedreira, mas o solo era uma terra fofa que atolava levemente os pneus: prazeroso de pedalar somente nas marchas mais leves mesmo que no plano. Caímos de volta na BR-386 e na Rodovia do Parque, ali fizemos mais uns 15km de asfalto e o rendimento estava excelente, não sei se havia um leve vento a nosso favor ou se a digestão do almoço havia chegado nas pernas. Na última subida da Rodovia antes da descida para Porto Alegre, Ogro teve um furo no Schwalbe Marathon traseiro. Furo mesmo, daqueles de deixar o pneu com quase 0 psi. Paramos sob a única sombra e vimos o prego que havia perfurado não só a câmara de ar, mas o pneu também. Solucionado o problema, retornamos para casa com a sensação de que os últimos dois dias foram uma semana.