Saí de Rio Gallegos com as energias recarregadas depois de dez dias desfrutando de boa companhia e conhecendo grandes pessoas.

A vontade de ingressar na Grande Ilha Terra do Fogo vinha desde muitos dias, além disso montar na boa bicicleta e começar o dia pedalando com aquele vento a favor numa estrada linda fez esse sentimento aumentar. A curiosidade de cruzar a fronteira entre Argentina e Chile era grande: embarcar na balsa que atravessa o Estreito de Magalhães e relembrar dos momentos de dias atrás em Río Gallegos fez meu dia perfeito.

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Tão bom se elxs fossem livres de verdade…

Já na fronteira chilena, sem grandes problemas para ingressar. Alguns trâmites de papeis e documentos e uma revista bem superficial nas bolsas que levavam comida. Eu tinha preparado tudo em Río Gallegos: embalei as comidas com todos os pacotes fechados e deixei fora de vista o que não poderia entrar como cogumelos desidratados e alguns temperos. O guarda foi tão tranquilo que não viu nem as cenouras! Verduras e frutas não entram de forma alguma.

As estradas chilenas têm seus charmes: pavimento em concreto e são mais limpas e organizadas que as estradas argentinas. O ventinho deu aquela virada diretamente para frente do meu campo de visão, a preguiça bateu e parei em uma parte da estrada para comer e desfrutar.

Depois, começou a chuva, a terceira de todo o recorrido até o momento. Patagonia leste chove menos devido ao bloqueio do clima úmido proveniente das cordilheiras ao oeste. Em compensação, os ventos são terríveis e qualquer vento depois do que rolou nos kilômetros anteriores são café pequeno agora.

A chuva me acompanhou durante o trecho até a balsa – sem custo para pedestres e ciclistas – e que me levou até o povoado de Bahía Azul, do outro lado do Estreito de Magalhães, dentro da grande ilha. Lá avistei somente dois restaurantes e um centro de estudo de pássaros que está sem funcionar há alguns anos.

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Conheci Alexei e Maritza, um casal que possui um dos restaurantes. Pedi um espaço pra armar minha barraca ou um local coberto devido à chuva. Alexei me ofereceu uma casinha para me abrigar e me convidou pra um café. Trocamos histórias e experiências de vida. Alexei é ciclista nato: participou de competições nacionais nos anos 90. Estive convicto disto quando começamos um assunto empolgante sobre equipamentos e lugares dentro da Terra do Fogo que eu poderia ir conhecer em bicicleta.

A chuva aumentou e meu sono estava garantido na casinha coberta. Se tivesse que montar a barraca “permeável”, seria uma noite nada agradável. Lá pelas 01AM entra um francês de mochila na casa. Que susto da porra! “Cara, que que tá fazendo?”

O francês já sabia da casinha por ter dormido uma outra noite quando ia para Ushuaia e, como voltava de lá, estrategicamente parou no mesmo lugar. Trocamos algumas palavras, rimos da situação e dormimos. De manhã, a chuva não deu trégua e eu decidi ficar uma noite a mais naquele espaço de conforto. Aproveitei e fiquei boa parte do dia com a Mari no restaurante. Conversei muito com ela e ajudei com as tarefas do dia. Na manhã seguinte, o tempo estava incrivelmente lindo e voltei pra estrada. Mari ofereceu estadia em sua casa aqui em Punta Arenas – de onde escrevo esse relato. Seus 3 filhos e a companheira de um delxs vivem aqui também. Compartilho da casa e de alguns poucos momentos, pois um está viajando de mochila pela Argentina, o mais velho é guia de turismo no Parque Torres del Paine e a filha estuda e passa boa parte do tempo na avó. Fer, a companheira de um dos filhos é a pessoa que mais tenho contato aqui. Mari e Alexei passam mais tempo em Bahía Azul e vem pra essa casa poucas vezes. 

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A casinha.

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Seguindo a rotina de estrada, as paisagens verdes, as ovelhas e as leves inclinações se apresentando faziam os meus dias incríveis. Uma sensação única estar nessa ilha. Estranho era não sentir aquela vontade de estar no Ushuaia, sendo ela o final dessa etapa da viagem e todo aquela mítica de última cidade do mundo, etc… Eu até forçava esse sentimento, mas ele se apagava. Estar aonde eu estava no momento era muito mais forte que o destino final.

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Refúgio onde passei duas noites com um espaço de exato 1 mês entre cada estada.

A Terra do Fogo é praticamente dividida ao meio entre Argentina e Chile, então passados alguns dias lá, estava eu de volta à fronteira, já que decidi fazer a rota clássica e voltar pra RN3, a estrada que percorri por tantos dias e que queria chegar até o marco final.

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Depois dos trâmites fronteiriços na aduana argentina, fui avistar um espaço destinado aos viajantes para descansar ou passar a noite que o Felipe Ruivo comentou nos seus relatos. Como tinha pedalado só 60km, queria conhecer o espaço e seguir adiante. Do outro lado da aduana, avisto 4 ciclistas e me aproximo. Washington, Vivi, Hernan e outro belga que esqueci o nome estavam almoçando super alegres, me juntei a eles. Washington e Vivi são do Brasil, mas estavam indo para lados opostos, os outros dois belgas estavam indo na mesma direção do brasileiro – e seguem viajando juntos. O momento estava tão bacana que decidi passar a noite com eles. A galera não sabia que existia o espaço para passar a noite e então foi uma festa à parte! Logo depois chegaram mais um casal de belgas que estavam começando sua viagem no Ushuaia. Foi bom compartilhar histórias e experiências.

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A próxima cidade era Río Grande e lá tinha um amigo que conheci na estrada e que me receberia em sua casa. O dia de pedal até lá prometia chuva para inferno e eu estava afim de enfrentar um clima ruim na estrada, já que imaginava que passaria muito bem a noite desse dia, conheceria a família de Javier e ficaria super confortável. Foram 80km de chuva. Curti o desafio.

Encontrei a Vivi duas vezes na estrada e almoçamos juntos em uma estância após nossa tentativa de nos proteger em uma escola rural não ter dado certo. Esse foi o último dia que vi ela. Agora ela está em El Chaltén. Pedalou até o Ushuaia e conseguiu uma caroninha pra Puerto Natales há uns dias atrás. Ela viaja há mais de um ano, é de São Paulo e pedala sem grandes planejamentos, totalmente livre. Grande coração!

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Río Grande é uma cidade industrial, cheia de empresas de transportes e grandes centros de distribuição. Rodeada de estâncias de criação de ovelha e pesca de trutas – as maiores trutas do mundo se encontram na Terra do Fogo –  fazem do cenário um lugar nada atrativo para mim.

Encontrar o Javier em sua casa foi bacana. Curto conversar com ele e aquela aula de Ocarina rolou, mas preciso treinar muito ainda. Fiquei duas noites em sua casa também para fazer uma geral na bicicleta e aquelas compras no mercado. 

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De Río Grande à Tolhuin eram mais ou menos 100km. Tinha grande curiosidade de conhecer a casa de cilcista da Padaria La Union de Emilio, uma pessoa muito conhecida na Terra do Fogo tanto por sua padaria que tenho certeza que boa parte do mundo a conhece, pois é parada obrigatória de quem viaja de carro, bicicleta, moto, carona ou qualquer outro modal terrestre (e extraterrestre), porque desconfio que Emilio seja de outro planeta, que pessoa bacana!

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Emilio recebe cicloviajantes em um espaço nos fundos de uma área da padaria. Ele já viajou em bicicleta e curte muito tudo que envolve esse cenário. Na casa, conheci italianxs, suíçxs, polonesxs, venezuelanxs, inglesxs e argentinxs. Neste dia Emilio não estava. Fiquei uma noite e segui pro Ushuaia.

Seriam novamente 100km pra chegar e eu estava com toda energia. A partir daqui, a presença das montanhas e toda sua força se mostrou totalmente presente. No Paso Garibaldi, subi com tranquilidade e esforço e desci com força e adrenalina. Que energia! Resolvi não chegar no mesmo dia e acampei em um lugar que me agradou muito. De todos os dias que eu estava na Terra do Fogo, esta foi a primeira vez montei a barraca, já que nas outras vezes eu dormi em refúgios e casas.

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Uma ilhota criada pelo rio Tristén.

A sensação de cruzar o pórtico do Ushuaia não causou nenhuma grande euforia em mim, simplesmente me senti neutralizado, por mais que tentasse esforçar um sentimento de grande emoção. Só pensava: “que vontades de ir até a Antártida, falaram que lá andam de Fat Bike” e “O que há depois da montanha?

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Vista das montanhas de Puerto Willians, a última cidade do mundo é  uma ilha chilena.

Se tem uma frase que eu posso ter convicção é “qualquer coisa fala que me conhece” que uma das pessoas que tenho muita consideração falou e fala e deve está falando nesse exato momento. O Rato, amigo que tenho desde a época de ouro do skate e que é como um irmão pra mim, lembrou que havia conhecido um cara que vivia no Ushuaia e que estava viajando pelo Rio de Janeiro. A rede faz com que a Matrix coloque apenas pessoas fodas na nossa vida. Fiquei alguns dias na casa do Santiago, uma pessoa incrível e muito criativa. Trabalha com arte de rua, intervenções e cria projetos criativos para diversos centros. Passei grandes momentos com ele e seus amigos. De cara fui conhecer o glaciar El Martial, não tão distante da sua casa que curti desafiar o tramo boa parte em bicicleta. Acampamos algumas noites perto de lá também e conheci Puerto Almanza com Inácio, um amigo de Santi que estava trabalhando em um curta metragem sobre o povoado local que vive da pesca e que vem diminuindo a cultura com o passar dos anos. Por se tratar de uma cultura antiga, os mais jovens procuram outras tarefas distintas, como turismo principalmente.

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Glaciar El martial – Ushuaia

Eu cogitei morar na cidade pra vivenciar o inverno e todo o universo aventureiro como: esqui, Snowboard, frio, etc. Ushuaia possui bons salários por ser turística todo ano. Sou extremamente deslumbrado e movi boa parte dos amigos com meus possíveis planos até que decidi seguir com a viagem e levar meu plano de viagem adiante. Executando a auto disciplina e auto psiLOUCOlogia…

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Cerro Guanaco – Ushuaia

Sendo o Ushuaia uma cidade muito turística, decidi tentar vender fotos da viagem. Consegui um bom preço no estúdio fotográfico e me aventurei dois dias pela cidade no bom e velho modo de colaboração espontânea. Conheci muitas pessoas nesses dois dias e fiz boas trocas. Uma das pessoas que conheci foi o Juan, um espanhol que já viajou em bicicleta e agora luta contra um câncer. Sem estômago, vesícula Biliar e apenas um rim vem treinando nas montanhas que circundam a cidade para a Ultra Maratona que ocorrerá em Abril deste ano em Torres del Paine. Esse cara me inspirou e eu inventei de subir e descer muito rápido o cerro Guanaco, um hiking disponível no parque Terra do Fogo. A trilha não era tão fácil e inclinada para inferno. A placa dizia: 4h (ida) e eu fiz em 03h55min ida e volta. Fiquei por dias com umas dores nos pontos do corpo que quase não uso quando estou pedalando. Bocó.

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Registro turístico feito por uma família que fez questão que eu tivesse a lembrança do momento!

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Última indicação da RN3.

Eu fiquei duas noites no parque. Acampei em dois lugares distintos, fui ao final da estrada RN3, fiz um hiking bem fácil e o cerro Guanaco. Havia outro chamado Hito XXIII que levaria até a fronteira com Chile, mas decidi não fazer porque estava moído do Cerro Guanaco.

No último dia de acampamento encontrei o Fernando, ciclista argentino que conheci na Padaria em Tolhuin. Acampamos juntos, conversamos bastante e atualizei meus planos de avançar por estradas alternativas até a outra balsa disponível na Terra do Fogo em direção à Punta Arenas.

Saí super tarde do Ushuaia. Do parque até a cidade são uns 15km e o tempo que fiquei na internet disponível em um posto de gasolina foi longo. Já tinha em mente acampar em vários pontos até chegar novamente na padaria de Tolhuin.

Pois bem, acabei pedalando a distância homérica de 25km neste dia e montei minha barraca às margens do Rio Olivia. Antes de chegar ao Ushuaia, tinha passado voando por esse lugar e não quis parar pois estava em um trecho em descenso e eu gosto um tanto da velocidade. Mesmo assim pensei que seria um bom lugar pra acampar quando estivesse voltando.

Um bom acampamento, bom rango, leituras e sono perfeito. Acordei tarde no outro dia, desarmei acampamento e quando terminei de armar a bicicleta, ouvi um ruído fora do normal. Tlec, tlec, tlec toda vez que girava a roda traseira. “Que merda é essa?” Meu diagnóstico acusou problema no cubo traseiro e com toda a calma e aceitação desarmei tudo e fiz uma manutenção geral no cubo com troca de esferas e etc. Coloco a roda no lugar e: tlec , tlec, tlec…

Respiro fundo, vamos de novo, está tudo bem. Tlec, tlec, tlec. Eita merda. No resumo, um dos parafusos do bagagero traseiro que eu tinha substituído há uns dias atrás estava milimetricamente em contato com o disco de freio. Deve ter trabalhado com a trepidação. Fiz uma manutenção à toa e lá se foram 3h do dia… 

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Parafuso chato.

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Armei a bicicleta, fiz almoço e dei risada. 

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A chuva novamente se apresentou e, no trecho em ascenso ao Paso Garibaldi, veio com tudo. No topo, parei um pouco pra esperar acalmar, mas foi pior porque o frio gélido estava me consumindo. Me agasalhei um pouco mais e me preparei pra descer. Muitas vezes a bicicleta parece skate downhill, mesma sensação! Recebi um sinal de carona, mas agradeci e segui descendo. Meu plano de chegar em Tolhuin ficou pra trás desde a manutenção antecipada do cubo traseiro. Lembrei dos conselhos de uns amigos que conheci e, no final da descida, entrei numa estrada de rípio que levava pro hotel Petrel, abandonado há alguns anos, com a promessa de me abrigar em uma das cabanas de pesca, também abandonadas. 

Chegando lá, encontrei a cabana, posicionei a bicicleta, entrei e vi que havia um fogão velho que alguém já havia usado como calefação à lenha. um casal de ciclistas da Eslováquia estava em uma outra cabana ao lado. Na procura por lenha, conheci um habitante local chamado Flávio, ex mochileiro e amigo dos ciclistas. Muito receptivo, contou histórias das cabanas e explicou o porquê do abandono e das depredações: “Os homens das pickups que saquearam as casas feitas pelo governo pra fomentar a pesca no lago. Vocês ciclistas e eu como ex mochileiro queremos preservar e usar das instalações locais.”

Também troquei uma ideia com o casal de eslovacos e fui pra cabana. Sequei roupas, fiz a janta e comi acompanhando o clima mudar de cara. 

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Essa era a cor natural do momento.

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Pedalar no outro dia com sol e um pouco de calor foi recompensador. Faltavam 50km pra Tolhuin e o vento a favor me empurrou pra cidade com facilidade. Faltando pouco pra chegar, avistei um parador e fiz uma pausa pra um chocolate. Fui recebido por algumas raposas e cheguei muito próximo delas. Minha lente não tem zoom e é muito difícil fotografar tão de perto. Meu dia de sorte.

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Depois de três dias pra pedalar 130km, Tolhuin! Eu chego na casa de ciclista e encontro o finlandês que conheci no Ushuaia. Taneli saiu da cidade de Helsink e pedalou 30000km até Bali – Indonésia. Lá, trocou seu método de transportar a carga e passou a usar o sistema bikepacking.

Com equipamentos extremamente leves e uma bicicleta própria para adentrar em lugares de acessos mais difíceis, se prepara pra iniciar a jornada Ushuaia > Alaska. Esse rolé ainda vai dar “pano pra manga”.

Meu inglês fajute + a vontade de estabelecer comunicação de ambos fez com que passasse 3 noites na padaria trocando ideias com Taneli sobre planos de viagem, mapas, aplicações, vida, etc. É provável encontrar ele no decorrer da viagem já que eu ficarei muitos dias aqui em Punta Arenas e ele vários dias na padaria.

Seu plano agora é terminar o site e estabelecer mais contatos com as marcas na tentativa de fechar patrocínios. Segue os dias trabalhando nisso e 4h ajudando na produção da panificadora em troca de comida e hospedagem. Emilio, o proprietário não pede nada em troca mas Taneli fez questão de trabalhar em algum período do dia para ajudar em algo, conhecer muitas pessoas que por lá passam e treinar a língua espanhola. 

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Emílio mais acima e o restante da equipe

Antes da última noite, um caminhão com 5 toneladas de farinha de trigo havia chegado e a possibilidade de ajudar estava presente. Eu, Taneli, Emilio e outros funcionários trabalhamos juntos na descarga do caminhão. Sacos de 50kg sendo empilhados gentilmente, um bocado de força, muitas risadas e um bom momento para conhecer melhor o Emilio. Não esperava ganhar nenhum dinheiro com isso e queria retribuir toda a gentileza que recebi nesses dias. Mesmo assim, recebemos uma boa quantia pela tarefa.

A partir daqui, planejei avançar pela parte mais inóspita da Terra do Fogo pra evitar refazer a mesma rota em direção à Punta Arenas. Eu contava com 420km em rípio e algumas entradas fora de estrada por dentro de fazendas. Tinha vontades de testar meus limites no rípio com peso acima do que pretendia carregar na carretera Austral que é um circuito de rípio de mais de 1200km localizado no Chile, cheio de paisagens e desafios.

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No final do primeiro dia, o vento patagônico pegou pesado como há tempos não via. Pedalei um par de kilômetros e busquei abrigo na estância Los Cerros. Não havia ninguém, então esperei pessoas chegarem e fui convidado por um dos trabalhadores pra entrar e compartilhar de uma janta e casa quente. Conheci sua familia, brinquei um tempo com as crianças e dormi.

Os próximos dois dias foram de tempo fechado e bastante vento. Meu plano de entrar em uma fazenda pra cortar caminho e avançar por terrenos mais desafiadores que estavam à minha frente. Abrir e fechar porteiras eternas empurrar a bicicleta por trilhas fizeram eu vivenciar uma aventura muito recompensadora.

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Sem estradas e sem trilhas.

No final desse dia, fechei o contador em 55km. Encontrei um lugar protegido e montei minha casa. Acordei no outro dia com o tempo fechado e pouco vento: sinal de que coisa não tão boa estava por vir. O clima continuou assim até a minha chegada na aduana argentina. Pedi um espaço pra ficar e me deram uma salinha com alguns colchões. Vi os chuveiros, mas infelizmente não tinham água quente. Como eu não queria ficar pedindo mais coisas, tomei um banho frio revitalizante, fiz a jantinha e capotei.

Chuva na manhã, chuva todo o dia. Passei pela aduana chilena e tampouco inspecionaram minhas mochilas. Conheci um sueco que viajava solo de carro e trocamos algumas palavras e mensagens de motivação e força. Pedalei até um local que pensava ser uma estância na intenção de conseguir água e um pedaço de pão – meu pão havia acabado e comer pão com alguma verdura, algum queijo e algum e molho me agrada e é muito mais fácil do que fazer comida durante o dia.

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Tomando o café no “quentinho”.
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Parecia paisagem de frente de guerra.

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Fui recebido por Alejandro, que me levou até a cozinha. Logo vi que não era uma estância qualquer. Cameron é um lodge alto padrão para pessoas que buscam aventuras e tratamento VIP. Seus clientes vão desde fotógrafos e artistas plásticos a pessoas políticas e outras dispostas a pagar U$400 por dia. O chef Rodrigo me fez tomar assento e comer uma sopa, pão, vinho, doces, frutas… Chovia a vida lá fora e ele me convida pra passar a noite no local. Passei o dia comendo e ajudando ele em alguma tarefa como lavar louça ou me encarregar do fogo e lenha das habitações. Havia apenas um hóspede então, o trabalho neste dia estava leve e mais desfrutamos que trabalhamos.

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Wal e Rodrigo.

Tive um contato com o hóspede neste dia e foi bem delicado.

Eu estava com Rodrigo num quintal onde fazíamos um fogo e meu mapa de viagem estava sobre à mesa. O hóspede muito altivo chegou e me perguntou: “onde estamos aqui no mapa?” Prontamente levei meu dedo até o ponto que estávamos e tranquilamente respondi: “aqui”.

– Não estamos aqui! Diz o hóspede.

E foi verificar no seu mapa de telefone. Nesse período, entra um dos guias e confirma nossa posição onde eu informava a posição correta.

O Hóspede ficou sem jeito e trocando o assunto, tira uma faca – exatamente igual a minha – e diz: “essa faca é pra cortar pescoço de brasileiro!”

– Essa lamina corta pescoço de qualquer pessoa, de qualquer nação. Respondo tranquilamente e resolvo sair de cena.

Depois desse momento, conversei com Rodrigo sobre o ocorrido e ele comenta que “engole vários sapos” de alguns clientes altivos como esse. O trabalho do Rodrigo se dá por 6 meses, domingo a domingo disponível. O salário para tal é atrativo mas não sei se paga os sapos…

Rodrigo perguntou se eu não tinha curiosidades de conhecer uma área mais extrema da Terra do Fogo. Perguntei qual era e por muita sorte foi a mesma que tinha muitas vontades e que Alexei – ainda em Bahía Azul – havia comentado comigo.

– Deixa todas as coisas que não usar e segue pra esse trecho sem grandes cargas. Come toda a tua comida que aqui eu te reabasteço pra seguir viagem. Eu já pedalei até lá e queria que tu também pedalasse esse trecho! Diz Rodrigo muito eufórico.

Enquanto ele falava, eu ia esvaziando os alforjes extremamente contente!

Com essa oportunidade, me aventurei numa área muito extrema e pouco acessada por quem faz cicloturismo pela Terra do Fogo. Foram 240km de distância entre o lodge que estava até o final da estrada Y85 incluindo meu retorno até o lodge. Fiz em 3 dias e acampei duas noites no espaço em construção de outro lodge onde o tio do Rodrigo é adminstrador. Checkpoint perfeito com um trailer quentinho pra secar roupa, tomar uma bebida quente e rir muito com o restante da equipe que trabalha por lá.

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Demonstração tosca do peso da bicicleta.

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O lugar é surreal. Atravessei duas montanhas, rolou um contato próximo com a neve que caía tímida nos pontos mais altos, subidas lentas e descidas alucinantes e absurdamente rápidas chegando na casa dos 60km/h. Como é bom elevar a adrenalina!

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Caracol de curvas montanha acima. Impossível visualizar o final por causa da neblina.

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Mesmo com as chuvas e o frio, desfrutei cada segundo dos lugares que passei. Voltei pro lodge do Rodrigo extremamente satisfeito, assim como ele também estava!

– Eu via as chuvas pela janela e pensava que você poderia estar chorando abaixo da montanha. Dizia Rodrigo cheio de graça!

-Pega a câmera e curte as fotos guri! respondi enquanto tomava um saboroso vinho.

Depois de ser reabastecido com comida pro momento e também pra levar comigo, me passaram a chave de uma outra casa disponível pra funcionários com fogão à lenha e banho quente. Acordei no outro dia cheio de energia e me propus a ajudar o Rodrigo em algumas tarefas e perto do meio dia parti pra estrada.

Rodrigo foi tão especial que fez eu deixar os itens que eu havia decidido entregar pro Ogro e João aqui em Punta Arenas. Os guris e as gurias virão para cá dentro dos próximos dias para iniciar a jornada até Torres del Paine, onde farão o circuito maciço de trekking. O kit contará com coisas que eu não pretendo mais carregar no intuito de ficar mais leviano pro futuro. Itens estes que eu não uso e que, por falta de experiência, resolvi transportar desde minha saída de casa. Todas essas tralhas seriam levadas pelo tio do Rodrigo até Punta Arenas!

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cafeteira italiana, livros, roupas, mochila…
Ou seja, eu já estava pedalando com a carga pretendida pra zona de maior ascensão e terrenos irregulares da expedição antes do previsto!

Eu pude me testar em tudo que queria, pude pedalar em lugares incríveis que sentia vontades por conta do meu potencial e por conta das pessoas que conheci pelo caminho.

Não bastando, quando eu havia pedalado menos de 20km, uma pickup pára e pergunta: 

-Tu és amigo do Rodrigo?
-Do chef? Sim, sou!

-Sobe aí, vou te levar até o lugar que tu pretendia pedalar hoje!

Incrível! Não bastando a gentileza e todo o acaso, notei que o rapaz jovem pilotava com habilidade pelas estradas de terra. Perguntei sobre seu trabalho e ele disse que era mecânico e fazia entregas de carros para uma empresa de aluguel de veículos.

-Pilota super bem. Tua leitura de curva é perfeita por aqui. Digo com convicção.
-Sabia que esta estrada é uma pista de corrida anual? Se chama corrida da hermandad!
-Capaz?

-Sim, eu participo da competição!

 Nossos trabalhos e hobbies tinham a mesma essência: ele trabalha em carros e eu em bicicletas. Ele participa de competições de carros e eu viajo em bicicletas!

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Neste dia ele me deixou no mesmo refúgio que eu havia ficado há 1 mês atrás. Se eu seguisse ao norte voltaria para Río Gallegos, se fosse para leste voltaria para Río Grande. Meu destino agora era o sentido leste em direção à Porvenir, onde havia a balsa que me distanciaria da Terra do Fogo. Decidi não pedalar neste dia e ficar de boas no refúgio lendo um livro.

Acordei com a cabeça em Punta Arenas; hoje é dia de chegar!

Com toda calma e tranquilidade – essa que vem me acompanhando desde que ingressei na ilha – fui recolhendo as coisas e tomando o bom café da manhã.

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O dia estava perfeito pra pedalar. Havia sol e vento moderado e as estradas lindas costeavam a Bahía Inútil: leva esse nome desde a época dos desbravadores, quando constataram que a bahia não servia nem de refúgio, nem atraque.

Em um certo momento, o tio do Rodrigo, que saía do lodge em contrução, passou por mim e me ofereceu carona. Eu neguei porque estava muito bom pedalar por ali.

– Olha, faltam 40km e a balsa sai às 19h. Depois desta, só na terçafeira. Disse o tio do Rodrigo, apelido Côco.

– Vai dar tudo certo, sigo no pedal, valeu Côco! Respondo muito enérgico e contente.

Foi eu perder de vista o veículo que a estrada começou a apresentar colinas com mais ascensos que descensos… O tempo começou a encurtar e eu tive que manter uma média alta o tempo inteiro e teria que fazer poucas paradas. Minha vontade de chegar e o desafio de pedalar até lá sem pedir nenhuma carona tomou conta de mim. Preciso chegar! Num trecho avistei uma casa de um pescador pra pedir água. Acabo ficando uns minutos a mais em meio a uma boa conversa até que decido ir embora porque o tempo estava cada vez mais curto.

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Tenho que chegar mas não posso perder uma boa foto.

Pedalei forte até Porvenir e cheguei na balsa faltando 10min pra sair!  Uma vitória pra mais uma competição solo onde eu sou o único oponente. Doente!

A balsa é muito grande e leva diversos veículos. Fazia frio e ventava bastante. Contemplei a paisagem tomando um pouco do que restava do vinho. Quando resolvi caminhar pro lado norte da embarcação, encontro o tio do Rodrigo: “pensei que não tinha conseguido chegar!” Que momento mais bacana!

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Chegar em Punta Arenas em bicicletas é outro destino mítico. Foi exatamente nesta cidade que fui despertado pela aventura de viajar em bicicleta. Foi aqui que cheguei em avião para fazer o trekking em Torres del Paine há uns anos atrás. Já era tarde e eu me dirigi pra hospedagem que já conhecia no intuito de ficar apenas uma noite e assim, contatar Mari e Alexei – a casal que conheci logo que ingressei na Terra do Fogo – com toda calma pela manhã.

Ser reconhecido por Eduardo, dono do hostel e saber que ele conhece Rodrigo e seu tio, e que lembra de toda a turma do Brasil que se hospedou anos atrás foi incrível. O único azar foi saber que o hostel estava totalmente cheio naquela noite. Não havia camas nem espaço externo para barracas.

Não tive outra opção e contatei Mari que prontamente respondeu, me passou o endereço de sua casa, onde fui recebido por seu filho e sua filha.

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Dose de energia extra encontrar esses caras aqui.

Eu estive na companhia dos meus amigos, colegas de profissão e apoiadores no projeto Expresso Patagonia do Bike Handling. João, Ogro, Isa e Alice chegaram Domingo (13) aqui em Punta Arenas.

Logo no começo da jornada, enquanto eu ainda viajava com os amigos da Latintin e o Gustavo Prieto, fiz a seguinte reflexão sobre a minha viagem:

Etapa 01 – Porto Alegre > Buenos Aires
Sou uma criança e tudo que passará será novidade. Sentimentos serão sensíveis e eu tenho o apoio dos amigos na expedição.
Etapa 02 – Buenos Aires > Ushuaia
Sou adolescente e preciso aprender a me virar sozinho. Não tenho a presença contínua dos amigos, a escolha do caminho para o final da etapa não foi a mais fácil mas precisava me aventurar. A emoção e os sentimentos da falta de proteção serão mais presentes.
Etapa 03 – Ushuaia > Santiago de Chile
Sou adulto e estou mais maduro. Sigo em constante aprendizado, no entanto, posso aplicar melhor meus conhecimentos nas adversidades que virão. Poderei sentir minha mente e meu corpo mais preparados pro que propor enfrentar.
Etapa 04 – Santiago de Chile > Porto Alegre
A experiência de todo tramo que passei geraram um par de histórias e vivências. É momento de voltar e compartilhar sem deixar de absorver toda a sabedoria vivenciada no percurso. Nunca pararemos de aprender.

Essa foi a melhor escolha que eu pude tomar em toda a minha vida. 

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Como de praxe, segue o link do percurso no Strava e também de um álbum que criei no Flickr:  https://www.flickr.com/photos/148349536@N03/

Descontando a carona do piloto de corrida, eu pedalei 571km.

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Saiba mais sobre a expedição expressopatagonia acessando a tag 🙂

Tem alguma dúvida ou quer trocar uma ideia com o Freitas? expressopatagonia@bikehandling.com.br