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A meta do momento era a cidade de Puerto San Julian, 430km em 5 ou 6 dias, que finalizei em 4. Nesse recorrido, a temperatura baixou e as médias eram de 8 a 24 graus, perfeito! Pedalei muito bem com muito e pouco vento. A partir daqui também comecei a utilizar o Windguru e o Couchsurfing com mais frequência. Na primeira noite deste recorrido passei os primeiros 80km margeando o Atlântico. Quando planejava a viagem, via muito essas estradas no Google streetview. Logicamente acampar próximo do mar seria algo que eu faria e fiz.  Uma pena o vento da noite fazer a barraca quase voar, preencher eu e a bolsa de dormir de terra e uma noite bem mal dormida. Acampei com vista pro mar, pouco importa haha!

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Pela manhã depois da noite no perrengue.

Pedalar até a cidade de Caleta Olívia foi tranquilo. Há a construção de um novo tramo de rodovia por vários quilômetros e as obras estão paradas fazem anos. Tive uma ciclovia particular com trechos em rípio e asfalto. O vento lateral passava despercebido comparado a tranquilidade em que pedalava.

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Antes de chegar em Caleta, um senhor que pilotava seu carro na via contrária me chamou e fez eu parar para perguntar de onde eu vinha, para onde ia e outras perguntas sobre a viagem. Por um momento me espantei com a situação. Ele disse que estava indo à Comodoro Rivadavia levar seus parentes no aeroporto e que voltaria para a mesma estrada em 3h ou 4h e caso me avistasse na estrada, daria carona até Puerto Deseado, cidade turística onde morava. Eu não levei muita fé, nos saudamos e segui viagem.

Já em Caleta Olivia, enquanto comprava frutas e verduras em uma casa muito simpática conheci Kasemiro, que havia feito uma viagem em bicicletas até a região de Missiones, nordeste do país. Seus planos eram chegar no México mas, um descuido de um tiro de espingarda em seu pé acabou com os planos e fizeram antecipar seu retorno à Caleta Olívia. Não gosto de caçar e tampouco correrei esse risco. Kasemiro me convidou pra almoçar em seu restaurante e assim conversamos bastante. Por volta das 15h estava novamente na estrada.

Em um momento de descanso às margens da estrada passou por mim um ciclista e sua boa bicicleta de montanha. Nos saudamos sem muitos sentimentos. Noutro momento o vi voltando e novamente uma saudação sem grandes ânimos e então, outra vez, ele retornou ao mesmo trecho que e me ultrapassou. Meu instinto fez com que eu o seguisse sobre um tramo mais inclinado da rodovia e sem falar nada me pus próximo à sua roda traseira e o acompanhei. Um pouco antes de terminar ele olha para trás e se espanta. Começamos a rir e aí sim conversamos um pouco – sem parar de pedalar. Trocamos adesivos e contatos. Martin Arias treina forte e participa de competições ao redor do país e foi um prazer acompanha-lo.

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Lá se vai Martin!

Depois de alguns quilômetros, distante 30km da entrada para a estrada que leva à Puerto Deseado, resolvi descansar e comer um Mantecol (barra de creme de amendoim muito, mas muito rica, porém, não vegana) e quem eu encontro? O tal senhor que me parou há horas atrás! Desmontei quase toda a bicicleta para colocar em seu carro Sedan e só fui de carona porque toda a situação foi bastante atípica e engraçada.

No final, disse que não iria até Puerto Deseado porque voltar mais de 100km para a estrada principal (ruta3) me impossibilitava de chegar no tempo que havia planejado em San Julian  e também não tinha grandes interesses de conhecer um lugar tão turístico recordando a experiência em Punta Tombo. Acabei ficando no pequeno povoado de Fitz Roy onde tratei de procurar um lugar para acampar depois de muito conversar com outras pessoas que trabalhavam nas minas de ouro e prata da região.

Enquanto pedalava procurando um espaço para acampar, decidi perguntar quanto custava para ficar em uma singela hospedagem. Nesse momento, um moto viajante chegou ao local e começamos a conversar. No resumo dividimos um apartamento, trocamos ótimas ideias e também contatos em Rio Grande na Terra do Fogo onde ele mora. Grande Javier, disse que vai me ensinar a tocar Ocarina, instrumento musical que tenho muito apreço.

Em um dos dias de pedal, eu não consegui chegar ao objetivo de acampar em um autoposto no povoado de Três Cerros devido aos fortes ventos e chuva e dormi uma noite literalmente entocado. Mais um bivak! Em compensação, na noite seguinte, acampei próximo da estrada e há exatos 100km de San Julian!

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A toca.

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Lugar perfeito e protegido do vento à exatos 100km de San Julian exatamente como eu planejava. Nesse dia eu ria como nunca e pude fazer uma fogueira que  há tempos não fazia.
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Em San Julian, havia feito contato com um Couchsurfing que infelizmente não pode me receber. Como não tenho internet, descobri isso  num wifi perto de sua casa. Tentei uma hospedagem nos bombeiros da cidade, mas eles não recebem viajantes há um bom tempo desde que mudou a chefatura…

Encontrei uma hospedagem familiar e fiquei dois dias descansando. Quando me preparava pra voltar pra estrada, recebi uma mensagem do francês Mickaël e o encontrei na cidade. Decidimos fazer o trajeto até Río Gallegos juntos. Super tranquilo e engraçado, fala espanhol muito bem, então, a comunicação entre nós se dá através da língua local. Tava precisando de uma parceria pra dividir a experiência. Chegou na hora!
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Chapati do amigo francês. Amassar a massa em uma bolsa plástica e assar no fogareiro multicombustível. Média de 12 chapatis e 25min de fogo. YPF Sponsor!

Fazemos todas as tarefas de acampamento e rangos juntos e pedalamos separados, pois nossos ritmos são bem diferentes. Basicamente eu pedalo à frente e espero ele a cada 20km. Nossa diferença era de 10min ou menos.

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Aeródromo de Piedra Buena.

Com o clima perfeito e vento à favor, chegamos rapidamente na cidade de Comandante Luis Piedrabuena. Com um aspecto muito distinto das outras cidades da Patagônia me surpreendeu a quantidade de pasto e árvores. Possui um lindo rio azul turquesa, degelo dos glaciares continentais. Encontramos um espaço entre muitas árvores e distante do centro da cidade e acampamos por dois dias para descansar, desfrutar e aguardar a calmaria dos ventos. Alguns banhos de água fria do rio Santa Cruz trouxeram boas lembranças de Torres del Paine há uns anos atrás. Depois, nada melhor que uma fogueira pra se esquentar!

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Micka.
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Acampamos junto às árvores ao fundo do canto direito, passando os edifícios brancos.

Partimos de Piedrabuena com vontades de ficar mais um tempo. Lindo lugar e ótimo clima enquanto estávamos por lá. Na estrada, pedalamos cerca de 10km e nos deparamos com o que chamamos de “escada evolutiva”:

Quando um viajante em carro vê um viajante em moto em meio ao deserto da Patagônia é comum se admirar com a capacidade de enfrentar o ambiente com um modal menos confortável e mais aventureiro. O mesmo acontece quando o viajante de moto vê um cicloviajante. E nós, com o que nos surpreendemos?

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Transportando os equipamentos em carrinhos de bebê.

Vindos de Califórnia e Washington DC, os dois estados unidenses enfrentaram o clima, terreno e todas as adversidades partindo de Puerto Montt até o Ushuaia com os planos de seguir ao norte do país à pé. Eles possuem larga experiência e vivem esse estilo de vida à 6 anos percorrendo outros lugares ao redor do mundo. Nos meses de inverno não viajam e param em suas cidades na maioria das vezes. Extremo.

Pensávamos em acampar no parador Le Marchand, um hotel desativado há 2 anos. Micka sentia um desconforto no joelho, pedalou mais devagar, o que fez com que eu chegasse no ponto de encontro 1h mais cedo. Resolvi caminhar ao redor da hospedagem pra sondar se de fato não havia ninguém. Dei umas três voltas e, em um momento, decidi forçar sutilmente janela por janela para tentar entrar e dormir adentro. Uma janela se abriu! Fiquei com aquele frio na barriga de entrar e esperei Micha chegar pra fazermos a aproximação juntos. Comi um Mantecol, li um pouco, Micka chegou e fomos investigar. O hotel estava limpo e com muitos móveis: colchões, camas, mesas, cadeiras e até algumas coisas na dispensa. Água apenas em um dos banheiros. Fizemos um macarrão, chapatis e dormimos muito bem. Antes de partir, deixamos as coisas exatamente como estavam (estilo ninja) além de uma mensagem de agradecimento que pode soar como uma ofensa ao dono que não permitiu nossa entrada. Deixaremos que ele entenda o que conseidere melhor.

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Micka decidiu pegar sua primeira carona para completar esses últimos 132km até Rio Gallegos, pois seu joelho apresentava dores. Saí pra pedalar tarde, por volta das 10h, e previa minha chegada às 20h em Gallegos. O francês demorou muito tempo pra conseguir carona. Por volta dos 80km pedalados, ele passou contente em um veículo e eu comemorei junto quando o avistei! 

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O lenço demonstrando o contrário dos avisos.

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Esse dia o vento deu trégua e completei essa distância sem dificuldades e às 18h, cheguei em Rio Gallegos . Presenciei a primeira indicação da cidade do Ushuaia, o final dessa etapa da viagem. Todo esse universo tem me deixado com um ânimo muito diferente de dias atrás.

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Conseguimos o contato do couchsurfer Carlitos aqui em Gallegos, de onde escrevo esse relato. A casa estava sendo compartilhada com dois mochileiros do Uruguai e Espanha. Micka saiu rumo a Terra do Fogo e eu decidi ficar uns dias a mais para escrever com um pouco mais de tranquilidade e desfrutar do que está acontecendo no momento. Creio que vou encontrá-lo em breve.

Me sinto aclimatado à viagem e também descobri meu amor incondicional por frio e montanhas.

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Subtraindo a carona do percurso, pedalei 744.9km

Strava da rota: https://www.strava.com/routes/7493763

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