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Estou no dia 49 da viagem e “un montón” de coisas já se passaram nesses dias. Está sendo uma experiência e tanto viver tudo o que envolve a viagem: desde os momentos compartilhados com os amigues de estrada, até os momentos que estou sozinho e quando encontro boas pessoas pelo caminho.

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 Quando escrevi o primeiro relato, eu estava acompanhado dos amigos da Latintin e do Gustavo. Estávamos na casa da abuela e Nacho. No decorrer dos dias conhecemos a Marcela da Larica comidas especiales  e ficamos umas duas noites na casa que ela partilhava com mais dois amigos. Trocamos algumas experiências de vida, desfrutamos de rangos, bebidas saborosas e bons momentos. Também conhecemos um bar bem bacana chamado Fênix, um pub no melhor estilo “cavernístico” com música boa e projeção de imagens do game que rolava dentro do local num grande paredão em frente.

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Depois de ótimas companhias, partimos pra um bairro distante 20km do centro chamado Pajas Blancas, mesmo bairro que vive o ex-presidente do Uruguai, o saudoso Mujica. Lá tínhamos contatado, através do WarmShowers, o Alejandro e Gabriella do Espaço Experimental Interior Profundo, que já receberam mais de 30 viajantes em um ano. Com ajuda de quem passa, aos poucos vão transformando o ambiente e construindo espaços que também contam com o apoio do Mercado Modelo de Montevidéo, que os abastecem de vegetais e outros itens de alimentação. A casa é vegetariana e altamente agradável. Ficamos uma noite apenas, mas senti que todos ficaram com vontade de voltar. Havia um viajante e um chef de cozinha da Turquia hospedado lá há mais de um mês! A casa também recebeu um casal de viajantes (da França e da Agentina) que passaram pela casa que moro em Porto Alegre. O casal viajava há 2 anos desde o norte do Brasil e estavam indo rumo a Buenos Aires. Foi ótimo lembrar deles que também foram muito marcantes por lá.

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Por muita coincidência, ocorreu um evento anual no pequeno centro de eventos do bairro. Organizado pelos moradores para fomentar o uso do espaço, houve cerveja e vinho artesanal, comida vegana e uma milonga de embargar o coração. Desfrutamos de um momento e tanto nessa noite.

A partir de então nossa meta era chegar em Colônia del Sacramento. Acampamos no pátio de um hotel e na noite seguinte, num posto de gasolina. Em Colônia ficamos na casa do Giane e da Camilla que conhecemos em Santo Ignácio há mais de 10 dias. Em 2014, Giani e um amigo fizeram uma viagem em bicicleta rumo ao nordeste do Brasil em 6 meses. Partilhamos muitos momentos com o casal que nos recebeu da melhor forma. Perdi alguns medos que tinha de água em um lago próximo da casa dos pais de Giani, além de perder uma sapatilha de ciclismo num furto por extrema falta de cuidados. Nesse momento infeliz também levaram boa parte dos equipamentos do Lucas e Andrey do Latintin. De Porto Alegre, o Jeanzeira passou a organizar um alleycat (corrida urbana em bicicletas no estilo de trabalho da mensageria) para arrecadar fundos e auxiliar na compra dos itens furtados. A sensibilização foi tanta que o evento vai rolar simultaneamente em três estados diferentes. Que sorte a nossa de termos grandes pessoas ao nosso redor.

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De Colônia del Sacramento em diante, iniciei a jornada sólo, pois o restante do grupo optou por atravessar para a Argentina de Barco. $400 pesos uruguaios o custo da travessia via Colônia Express.

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Decidi fazer os 490km em 5 dias pois já sentia necessidades de aumentar o ritmo de pedalada. Os dois primeiros dias foram duros pois eu estava acostumado com a presença dos amigos. Durante o dia eu tratava de pedalar e contemplar. Estradas lindas e com pouco trânsito, preferencialmente na ruta 56. Fiz alguns atalhos por estradas alternativas de rípio com um movimento frequente de caminhões pois queria saber como me saía nesses trechos.

Durante a noite eu necessitava conversar e não tinha ninguém pra compartilhar janta e momentos vividos no dia. No segundo dia, eu havia acampado atrás de uma escola rural em uma noite linda. Sozinho chorei muito e isso foi bom. Lavou a alma e me acalmou.

Nesse mesmo dia, conheci a Cris do projeto Eu ela e o mundo. Cruzei com ela na estrada: estava vindo do Chile rumo a Montevidéo, com a meta de passar as datas festivas de fim de ano,aqui em Mar del Plata, junto de sua mãe e de um amigo que fez na Ruta 40 em um dia com muita tempestade de areia. Eu e ela, um de cada lado da estrada, rumos diferentes vivendo e desfrutando das mesmas sensações.

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No dia seguinte, fui atravessar a fronteira rumo a Argentina. Sem muito drama na inspeção da bicicleta e nos trâmites de documentos. O “crux” é não poder atravessar a ponte em bici ou à pé. Apenas carros, motos e caminhões estão autorizados a cruzar a fronteira. Era Domingo e esperei quase duas horas para aparecer um caminhão vazio que pudesse levar eu e a boa bicicleta. Andei na carona uns 10km após a ponte até um autoposto. Pedalando pude perceber o terreno plano argentino, a falta de acostamento e o sangue nos olhos dos motoristas daqui. Pedalei uns 90km até Gualeguay, pois vi outra escola rural de portões abertos como um convite para eu me hospedar. A Escuela Rural número 64 me presenteou com um espaço lindo, água fresca e horta orgânica. Nessa noite, assim como a anterior, senti um vazio enorme querendo compartilhar os momentos q eu estava vivendo. Dessa vez, mantive minha mente mais tranquila e entendi melhor as minhas escolhas.

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Às 4h da manhã, eu estava de pé após ter dormido antes das 21h num bivak com teto estrelado. Presenciei um gambá e dois graxains se movimentando ao redor, fiz um tenro café da manhã e parti rumo a Buenos Aires. Esse foi o dia que mais pedalei até agora, foram 213km com paradas a cada 60 ou 90min e uma boa pausa para almoço mantendo médias de 18km/h e 20km/h com vento contra. Faltando 40km pro destino final, o vento virou e me soprou pra capital federal. Mantive a primeira média a 30km/h variando um ou dois km/h pra mais ou para menos, insano! Meus “gadgets” estavam todos sem bateria e eu não tinha acesso às músicas inspiradoras pro pedal. Me contive com o forte tráfego de carros e caminhões tirando finas homéricas de mim. Isso fazia com que pedalasse forte + a gana de chegar logo na capital e rever os amigos.

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No final, esse trecho que pretendia fazer em 5 dias eu finalizei em 4 dias. Demorei a vida pra encontrar os amigos que estavam na casa de Clara e seu companheiro Amir da Belika Cycle devido a falta de bateria no celular pra contatá-los e uma dose de caminhos errados pelo bairro de San Izidro. Depois de umas 4h de vai e volta, de conhecer boa gente no caminho, carregar telefone e catar wifi, eu encontrei todos. Foi muito bom rever os amigos depois desse período! Parece que se passaram semanas! Como eu disse, a viagem é extremamente intensa.

Passei 8 dias em Buenos Aires envolvido com trâmites de cartão, câmbio, revisões simples na boa bicicleta, compra de mantimentos e mudança de casas. Misturado a isso, muito Fernet com cola, cerveja barata do Chino, bike polo, rolés de bicicleta pela cidade e convivência com a galera local nos arredores e na oficina do Amir.

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A Belika Cycle é focada na modalidade fixa urbana/comp. Ele possui um conhecimento amplo e tem bons contatos, a maioria exclusivas. Ambiente vegano e de muita troca. Nos rolés que dei pela cidade, conheci dois ciclomensageiros que trabalham na Metrex, empresa de gestão vertical, de entregas que possuem carro e moto, além das bicicletas para efetuar entregas. Em Buenos Aires, não existe nenhuma empresa de entregas somente oferecidas em bicicletas.

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Depois de viver a cidade, a história da despedida rolou novamente e no mesmo dia no aniversário do Caio. Estávamos na casa da Clara em San Telmo. Na manhã seguinte, Lucas, Caio e Andrey saíram pra um lado da rua e eu para o outro. Gustavo decidiu ir de ônibus até o Sudoeste do país para conhecer e viver as belas estradas de Jujuy, Neuquén rumo aos sete lagos andinos.

A partir de Buenos Aires, foram 6 dias e 5 noites. Conheci Punta Indio, a ponta do litoral argentino. A água é turva, já que resulta confluência do Atlântico com o Rio de la Plata. A cidade possui uma comunidade com pouco mais de 2000 habitantes. Foi um lugar muito frequentando nos anos 60, pois havia um Hotel de renome na época com casino e pianola, aqueles que correm músicas automaticamente através de um rolo musical. O acesso era realizado somente a cavalo e haviam estes serviços de translado na época. Não consegui descobrir quando o mesmo foi tombado e hoje o que existe são resquícios da construção.

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Conheci um grupo de pessoas que fazia uma refeição no camping que não pude acampar, pois era proibido pernoitar. Ganhei gaseosa, pão, repelete e papel higiênico dos caras e um papo bem bacana sobre o sul do país. Um deles havia conhecido de barco boa parte do país. O calor do momento aliado aos presentes que ganhei e ao astral do lugar me fizeram ficar em um camping próximo. A Mariana deixou eu acampar sem custos no local devido ao baixo movimento na região e por ter gostado da ideia de viajar em bicicleta.

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Pedalei um pouco menos de 100km até Col. de la Glória e acampei em frente a um posto policial. No caminho até o local, fiquei sem água e como a estrada possui muitos moinhos de água, não pensei duas vezes em coletar um pouco de líquido fresco como já havia feito em outros momentos. Por descuido, a cerca era elétrica e eu atravessei a cerca a base de choque, nada forte mas o suficiente pra dar um susto. Tem muita criação de gado nessa região devido ao terreno plano e vasto pasto. Tem muitas destas “proteções” aqui, bem desagradável.

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Nesse mesmo dia choveu e pude constatar a permeabilidade da minha barraca. Trago comigo uma lona extra que pude testar com êxito pela segunda vez. Também percebi que preciso melhorar as habilidades de instalação da mesma em dias de muito vento. Alou, escola de sobrevivência Expresso Patagônia, em que posso ajudar?

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No dia seguinte, pedalei míseros 70km com muito vento contra e tempo nublado até a General Conesa. Estava com muita fome quando cheguei na cidade e não estava nem um pouco afim de cozinhar e me contentaria em comer pão com sementes, azeite e um pedaço de queijo. A cidade pequena contava com quase todos os seus estabelecimentos fechados pois costumam reabrir no fim da tarde e isso é bem comum nas cidades menores. Depois de ser interrogado num posto policial, me deram a direção do kiosko aberto e de um campo de futebol que poderia acampar. Foi uma das melhores noites que dormi.

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Acordei com vento a favor e isso influenciou muito no meu ânimo de pedalar. Fiz 125km até Villa Gessel, 20km distante de Pinamar, a praia vizinha com aspecto de cidade grande. Obtive um desempenho monstro nesses últimos 20km concluindo a distância em 39min e alcançando pela primeira vez médias de 40km/h em terreno plano e vento a favor. Cheguei em Gessel catando um lugar com água e longe da civilização. Impossível, tudo lotado. Percorrendo as ruas, encontrei a Hosteria Saint German e conheci Orlando, um jovem senhor de 80 anos. Havia perguntando a ele se conhecia algum camping e em meio as conversas sobre ciclismo ele ofereceu um dos apartamentos do velho lugar que se mantém firme há quase 50 anos.

O Orlando foi uma das pessoas que mais me marcaram nessa viagem. 80 anos, ciclista ativo e cheio de experiência de vida. A hosteria não é seu principal sustento e o mantém porque tem muita história e considera familiar o ambiente. O estabelecimento se mantém ativo nos dois primeiros meses do ano. Sua senhora – como ele costuma chamar sua companheira – vivem juntos há mais de 50 anos é responsável pela cozinha, junto de dois de seus netos e outras duas pessoas que dividem as tarefas rotineiras do local. Orlando aprendeu desde cedo a arte do tango e de manufaturas manuais como fabricação de relógios e raquetes de Tênis. Já fabricou matrizes para fabricação de peças de motores para submarino, navios e agora produz réplicas de motos italianas, peça por peça. Motos antigas utilizam rodas Campagnolo, mesma marca conceituada no mundo ciclístico, pasmem! Em maio do próximo ano, Orlando vai fazer 300km do circuito de Santiago de Compostela em bicicleta, pedala duas vezes na semana no velódromo de Buenos Aires, cidade onde vive e dança tango sempre que sua senhora “permite”. 
De manhã tomei um café com os amigos que fiz e parti rumo a Mar del Plata, onde estou agora. A cidade lembra Buenos Aires com uma linda praia. Estou hospedado em um hostel chamado casa RED e fico aqui até amanhã ou mais, não sei. A nível de curiosidade, este foi o primeiro momento que paguei por um lugar para ficar, o que me proporcionou boas noites de sono, alimentação farta e um momento pra escrever este relato.

Daqui pra frente a paisagem vai mudar cada vez mais. Vou me aproximar da Patagônia e das cidades que nasceram do petróleo. Ambientes hostis e sem muita presença de vida – nem de água. Estimo 14 dias pra entrar na primeira cidade da Patagônia.

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A boa bicicleta tem se comportado da melhor forma, furei uma vez o pneu e tenho certeza que foi por descuido da verificação de pressão. Ainda em Buenos Aires, fiz uma limpeza honesta na relação e verificação do alinhamento e aperto dos raios e um ajuste na transmissão. No decorrer farei a troca da corrente pois estou fechando 2500km pedalados em alguns dias. Por pedalar de tênis, sinto algumas dores fracas e bem pontuais em algumas partes do pé. Creio que seja a posição inadequada em alguns momentos. A Argentina é plana e pedalar sem sapatilha de ciclismo e sem firma-pé tem se saído uma boa experiência.

A minha alimentação de estrada se resume a arroz, cogumelo, vegetais que encontro, castanhas, nozes, lentilha, ervilha partida, além de: pão, chocolate, café, geléias e outros doces, sementes e algumas frutas. Quando paro em alguma cidade que posso me estabelecer por uns dias, tenho comido muito macarrão e vegetais como: brócolis, cenoura, espinafre, berinjela, acelga, etc.

Meu pedal está forte, porém necessito contemplar mais. Também não tenho fotografado muito. Sempre penso que vou passar por um lugar mais bonito do que estou e deixo pra fotografar depois. Escrevendo esse relato notei que deixei passar muitos momentos que eu poderia ter registrado e ilustrado melhor o texto.

Dizem que sempre sentimos falta do que não temos no momento; tenho saudades dos amigues e da minha escola de vida Pedal Express, assim como já estou sentindo saudades da estrada. Amanhã é um novo dia e como de costume eu não faço ideia do que me espera.

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Strava do percurso

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