expresso-patagonia-freitas-01

Escrevo este relato no vigésimo dia da viagem, no bairro Palermo, em Montevidéo/UY. Os dias têm sido intensos de vida. Somos uma única expedição. O sincronismo do grupo evolui a cada experiência e me sinto bem de fazer parte desse todo.  A vida itinerante possui uma rotina diária bem peculiar: acordar cedo, desmontar acampamento, fazer café da manhã, se alongar ou qualquer coisa parecida, pedalar, pausar para um lanche ou fazer um almoço, arranjar um local pra passar a noite, montar acampamento, fazer janta, dormir cedo. Em meio a isto, mesclo a contemplação dos lugares que passo, fotografo, escrevo no diário, leio livro e vivo o momento com todos.

Seguindo o exemplo do Igor e do Felipe Ruivo (que fez uma viagem parecida com a minha ano passado e está relatando um ano após o feito), deixo o link de duas músicas para que ouçam enquanto leem:

BlitzkriegAnesthesia

Saímos de Porto Alegre dia 20/10/2016, pedalamos em média de 80km/dia, não pagamos por nenhuma estadia até o momento e nossas noites variam entre barracas, galpões, hospedagem em casas de pessoas que já conhecíamos, que conhecemos ou o bom e velho bivak em deques ou pátios de casas desocupadas. Logo na primeira noite tivemos a sorte de dormir no galpão de uma estância em Palmares do Sul com banho quente e fogo à lenha. Foi o primeiro local que paramos, e a resposta positiva do Edson – o responsável pelo local, parecia uma saudação de boas vindas para a expedição.

Como a nossa viagem se estenderá por meses, é importante que toda a expedição controle os gastos. Saímos de PoA com muitos alimentos: castanhas, café, amendoim, geléia, cogumelo, lentilhas e outros grãos. Sempre que falta algo, abastecemos em mercados locais e além disso sempre cozinhamos nossa própria comida. Temos dois fogareiros multicombustível e generosas panelas. Quando sentimos fome paramos em algum lugar agradável e cozinhamos. A meta é não gastar com hospedagem: pra isso contamos com nossos equipamentos, redes de auxílio como Couchsurfing e Warm Showers e das pessoas que vamos conhecendo no caminho.

expresso-patagonia-freitas-02

Em Rio Grande tivemos problemas com a pessoa que iria nos hospedar e ficamos sem uma casa para passar a noite. Acampar na cidade grande é praticamente impossível. Eram 22h e não tínhamos pra onde ir. Tentamos os Bombeiros, pensamos em ficar am alguma praça,albergue público ou dormir na rodoviária abraçado nos equipos. Quando estávamos tentando algo no albergue, pessoas na frente de uma casa foram amigáveis. Paramos pra conversar e explicamos a situação. Cheios de alegria eles nos convidaram pra passar a noite na casa simples. Bivak na garagem e um lugar seguro para deixarmos nossas coisas. Eram 6 homens que alugavam a casa temporariamente pois trabalhavam no porto da cidade. O capitão, dono da casa e ex-pescador, fiel companheiro do álcool, de alma muito boa. Ficamos duas noites por lá. Fomos muito bem acolhidos. Nossas vidas diferentes proporcionaram boas trocas.

Também em Rio Grande, resolvi enviar pra casa alguns itens que não pretendo usar e outros que preferi não usar. Aliviei uns 3kg de peso 🙂 Mandei pra casa: 1 par pneu panaracer , 2 camisetas de algodão, 1 calça de passeio e 1 lente 18:135.

Depois disso, conseguimos mais um espaço para acampar dentro de uma estância. Até então, olhávamos a previsão meteorológica com pouco rigor. Nesta noite a previsão era da passagem de um ciclone extra-tropical: passamos um perrengue daqueles. A minha barraca, que não está das melhores, começou a molhar internamente. Convidei o Bittenca – que dividia a barraca comigo – para instalar a lona extra que trouxe. Passaram uns 40min e o vento forte de quase 80km/h + chuva fez parte da barraca desmontar. No final, passamos boa parte da noite embaixo da lona e da barraca desmontada em posição fetal com parte do corpo molhado até os primeiros momentos da manhã. A partir de então, verificar a previsão do tempo passou a ser crucial. Com vento forte e com vários itens molhados, precisávamos seguir. Pedalamos 2km e encontramos uma casa de madeira aberta e vazia. Uns 100m ao lado havia a casa de Martim. Anunciamos nossa pretensão de passar a noite ali. Ele disse que a casa era dele e que não havia problema de ficarmos lá. Foi perfeito, a previsão do tempo para o dia era de tempo seco e muito vento contra. Secamos tudo, recebemos a visita do Martim e acordamos com um belo dia pra se pedalar. Mais uma grande pessoa que acreditou no nosso desafio.

DCIM105GOPRO

Chegar no UY passou a ser a meta volante do grupo. Fizemos uma parada no Chuí para comprar algumas coisas, sacar dinheiro e fazer câmbio. No mesmo dia atravessamos a fronteira e acampamos em La Coronilla.

Minha câmera apresentou alguma falha e formatou o cartão de memória. Perdi todos os registros de PoA > Punta del Diablo…

A terceira grande pessoa que tivemos o prazer de conhecer foi Julio, em Punta del Diablo. O Marcos (amigo e fundador da Pedal Express) havia feito uma viagem pra lá junto com o Mingus há uns anos atrás. Descobrimos o endereço e sem avisar com antecedência Julio nos recebeu da melhor forma. Lá ficamos 2 noites com muitas conversas, fogueiras, praia e comidas. Julio é muito sábio e possui uma experiência de vida muito intensa. Sou grato de conhecê-lo.

expresso-patagonia-freitas-04

DCIM105GOPRO

expresso-patagonia-freitas-06

A meta da expedição passou a ser de pedalar menos e contemplar mais. As praias do Uruguai mais distantes da capital são lindas e a época que escolhemos permitiu acampar fácilmente em vários lugares, devido à baixa temporada. Ninguém do grupo conhecia Cabo Polônio, além de mim, que havia visitado anos atrás. Neste dia saímos tarde de Valizas e no caminho até La Pedrera (onde pretendíamos passar a noite) passamos pela entrada do parque que dá acesso até a praia em Cabo Polônio. Fizemos uma votação para decidirmos se iríamos até lá à pé – cerca de 90min – ou se continuaríamos na estrada. Só eu votei contra. A previsão era de chuva e já imaginava que vamos pedalar de noite caso não encontrássemos algum lugar para acampar.

Minha atitude egoísta – por já ter conhecido o local – acompanhado do que havia previsto de perrengues me manteve longe do grupo por algumas horas. Fizemos a caminhada pela rota dos caminhões abaixo de chuva intensa, levamos o necessário para fazer um almoço rápido e demos uma volta pelos arredores. No caminho de volta conseguimos uma carona no truck até as mediações da entrada do parque. Pedalamos de noite e achamos uma varanda de uma casa em La Pedrera para passarmos a noite. No final deu tudo certo…

expresso patagonia freitas 13.JPG

O trecho do litoral Uruguaio que eu mais me interessava de avançar era a laguna de Rocha e
laguna Garzón. Passei pelo local exato que havia acampado anos atrás com os amigos, foi ótimo lembrar. Em certo momento precisávamos atravessar a laguna de barco. Através de uma indicação conhecemos o Pepe que nos abrigou em um galpão. Ficamos uma noite pois o local estava em alerta amarelo e não permitia travessias. Nesse dia, esperamos a passagem do segundo ciclone da expedição devidamente abrigados.

expresso patagonia freitas 14.jpg

O galpão de Pepe fica na última casa do vilarejo de pescadores na laguna de Rocha. O serviço de travessia custa P$200 e ele abriga ciclo viajantes há muito tempo 🙂 Quem quiser contatá-lo, segue telefone: 0988801942!

expresso-patagonia-freitas-iphone-15

O nível de “contemplativismo” durou até a praia de José Ignácio. Próximo de Punta del Este já começava a ficar mais difícil um lugar para acampar selvagem ou encontrar casas desocupadas. Com este cenário e percebendo a distância até Montevideo diminuir, a meta volante se tornou alcançar a capital uruguaia.

expresso patagonia freitas gopro 16 .JPG

Acampamos uma noite em Punta Ballenas e uma noite em Cuchilla Alta, que por alguma razão lembrou-me a praia de Mariluz situada no litoral gaúcho. Chegamos em Montevideo há dois dias atrás (dia 6/11/2016) e vamos ficar aqui até o final de semana. Agora, a meta volante é chegar numa casa de cicloviajantes chamado Interior Profundo no bairro Pajas Blancas há 20km de onde estamos  agora.

expresso-patagonia-freitas-iphone-17

Caio fez amigos uruguaios em Santa Catarina há 4 anos atrás. Restabeleceu contatos e estamos na casa de Nacho junto de Rosa, sua abuelita. Estamos sendo muito bem recebidos.

expresso patagonia freitas 19.JPG

Falando um pouco sobre os equipamentos, nos primeiros 100km eu só pensava se a bicicleta iria aguentar o tranco. Estava carregando 40kg de bagagem e isso é coisa pra inferno. Todos os dias eu verificava parafusos, centragens achando que havia algo solto, etc. A mecânica está em bom estado e a bike não apresentou nenhum problema até o momento. Com isso me sinto muito mais confiante. Meu ritmo de pedalar assim como do restante do time evoluiu muito. Muito obrigado novamente ao Daniel Garça, do Garça Bike Studio pela revisão geral monstra e ao Ricardinho da Adventure Bike Shop pelas alavancas de troca de marcha.

expresso patagonia freitas 18.JPG

Problemas mecânicos do grupo: dois pneus furados, dois raios quebrados, bagageiro traseiro frouxo e soltou da fixação e alguns ajustes de câmbio.

A média de gastos por pessoa está em R$24,00/dia. Almoçamos em restaurante apenas uma vez, bebemos uma ceva uma vez que outra assim como a bebida saborosa com base de cola. Doce de leite também segue presente. A ideia geral do grupo é diminuir a média dos gastos para R$15,00. Agradeço o apoio dos amigos e de todos as outras pessoas que passaram por nossas vidas.

Não sinto saudades de casa.

DCIM105GOPRO

Rota do Strava: https://www.strava.com/routes/6981221

Veja os outros relatos do Expresso Patagônia acessando a tag #expressopatagonia!

Siga o Bikehandling no INSTAGRAM e no FACEBOOK!

Tem alguma dúvida ou quer trocar uma idéia com o Freitas? expressopatagonia@bikehandling.com.br

Anúncios