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Faltando um mês e alguns dias pra viagem rumo aos confins da América do Sul, eu precisava percorrer alguns quilômetros devidamente carregado e com todas as bolsas clipadas na bicicleta.

Desde que comecei a pedalar diáriamente, 4 anos atrás, eu imaginava percorrer a BR-290 em direção a cidade de São Gabriel, distante 340km de Porto Alegre. Motivos nostálgicos me chamavam a atenção, pois morei naquela cidade dos 3 aos 6 anos de idade. Concluí a pré-escola lá e, após vestir a pequena toga, vim pra Porto Alegre onde resido até hoje.

Como de costume, pensava em ir solo. Os amigos e companheiros de atividades do Bike Handling adorariam me acompanhar em alguma aventura antes da grande viagem. Não bastando a companhia destes dois caras, Palito sentia necessidades de pedalar longas distâncias e o Juliano – que nunca havia pedalado mais de 80km – resolveram me acompanhar: eu fiquei muito bem com isso.

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Neste primeiro dia pedalamos 180km. A estrada começou a ficar mais agradável a partir da cidade de Pantano Grande. O relevo que predomina é o das coxilhas, ou seja: tudo que tu sobe, tu desce, e vice-versa. Quando falo em estradas agradáveis, me refiro às paisagens. Por mais que sejam plantações homéricas de soja, “canola” e arroz, dá pra imaginar lindos campos verdes, sem interação humana e sem grandes máquinas matando o solo com a intenção de “nutri-lo” e prepará-lo para receber toneladas de sementes transgênicas. As vezes dá certo imaginar algo bonito…

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A nossa primeira noite de acampamento foi na comunidade rural de Vila Lobos, distante cerca de 40km de Cachoeira do Sul. Ao avistar algumas casas, começamos a interagir com a comunidade, buscando água e informações sobre um lugar para acampar. Conhecemos a Dona Celina, que nos reabasteceu com água, mas foi pouco amigável quando pedimos permissão para acampar em algum espaço do largo terreno que circundava sua casa. Eu e Palito resolvemos adentrar uma estradinha que levava a algumas casas. Falamos com a Luciana, que aguardava seu companheiro André e ele poderia nos conseguir lugar para a gente ficar. Dito e feito! André administrava o centro comunitário local e permitiu nosso acampamento por lá. Era um local coberto e com energia elétrica. Infelizmente com água salobra nas torneiras. Um salve pra Dona Celina 🙂

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Em um comércio local, havíamos comprado arroz e uma bebida saborosa. Eu havia levado um bom fogareiro e uma panela que comportasse cozinhar para 5 pessoas. Cozinhamos um delicioso arroz com cogumelo, cebola, shoyo, azeite de oliva e tempero maneiro. Após o magnífico banquete, decidimos não montar barracas e dormimos bivak no local coberto.

A ideia era acordar às 04Am mas atrasamos 2h. Fizemos um bom café com aveia, castanhas, coco e café preto na cafeteira italiana. Sobre essa quantidade de artefatos de cozinha, eu havia decidido transportar tudo pois queria treinar a pedalada com bastante peso. O restante do grupo pedalou no estilo bikepacking e autossuficiente (com miojo, mas autossuficiente). Veja o equipamento do Ogro aqui.

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A estrada nos presenteou com um belo Sol pois começamos a pedalar às 8Am. Juliano começou a sentir as dores (muitas) do pedal, e mesmo assim,  seguiu bravamente. Eu disse pra ele manter o ritmo tranquilo e esquecer a ideia de alcançar o restante do time. Era comum Ogro, JV e Palito manterem alguns minutos a frente de mim e eu manter alguns outros do Juliano. A cada 10km parávamos e juntávamos o grupo e comíamos algo doce.

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Foi dessa forma que chegamos em Cerrito do Ouro por volta das 17h. A promessa era encontrar um mercado neste vilarejo, conforme alguns locais haviam nos indicado há alguns quilômetros atrás. O mercado estava fechado… outro local nos indicou a ida até o CTG da cidade para falar com o proprietário do mercado – Vai que ele se anime em vender uma lentilha para nós?

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Chegando no centro de tradições regionais, percebemos que ia acontecer alguma festa. Conhecemos o Marcio, o CEO do mercadinho. Ele não quis sair pra abrir o estabelecimento e lembrava um senhor feudal pela  sua postura altiva. Explicamos que estávamos em viagem e que gostaríamos, se possível, de um espaço para acampar e coletar água. Ele prontamente ofereceu um terreno distante poucos quilômetros e acesso à água.

Havia uma força tarefa cortando deliciosos legumes e perguntamos se eles se interessariam em vender uma porção pra complementar nosso arroz com shoyo. Saímos com cenoura, tomate, repolho… E mais tarde, voltamos – eu e Ogro – para comprar uma saborosa saladinha de maionese.

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O lugar disponível para acampar era lindo: Nos deparamos com um por-do-sol longo e um luar incrível. Jantamos, montamos as barracas e fomos dormir. Eu fiquei acordado um tempo a mais testando alguns registros de longa exposição.

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Acordamos com um lindíssimo nascer do Sol nas portas das barracas. Estávamos sem grandes alimentos pro café da matina, mesmo assim decidi fazer o composto de cafeína. Juliano estava escondendo o jogo; O larápio havia guardado alguns pães e uma pasta de amendoim pro dia do juízo final, ou do apocalípse zumbi, ou algo que o valha! Todos comeram uma porção enquanto levantavam acampamento. Na saída, coletei alguns limões e fiz uma bebida para levar nas caramanholas. Novamente estávamos na BR290 e com um pouco de fome.

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Perto das 11h, achamos uma padaria e comemos alguns pães. Depois dessa fartura, evitamos almoçar e praticamos o Toca-toca, sem grandes paradas.

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Em certo momento, por volta das 14h, paramos para reagrupar, achando que ainda faltavam 20km. Palito foi verificar no celular e faltavam 5km! Não ficávamos controlando as distâncias com frequência e a notícia deixou todos muito bem!

Chegando na cidade, paramos no restaurante de posto de gasolina – no pórtico da cidade – para reabastecer nossas reservas com alimentos saborosos. João, Ogro e Palito compraram a passagem de retorno para o mesmo dia e sobraria pouco tempo pra conhecer a cidade. Como pai e mãe de Juliano moram em endereços distintos, visitamos os dois. Ainda tivemos a oportunidade de presenciar, em pleno vôo, o tio Aírton, em seu paraglider com motor!

Eu e Juliano levamos os guris na rodoviária e voltamos pra casa da sua mãe. Dormimos lá e acordamos, no outro dia, pra fazer um pequeno tour pela cidade. Como eu morei lá, queria lembrar de lugares, escola e outras lembranças. Foi uma experiência e tanto puxar da memória lembranças  de mais  20 anos atrás. Decidi não registrar nenhum destes momentos mesmo tendo levado a câmera. Por volta das 13h pegamos nosso ônibus com destino de volta. Fiquei muito satisfeito com os equipamentos e com os objetivos que cumpri. Me sinto confiante e animado pra iniciar minha expedição solo e muito grato pela companhia dos amigos. São pessoas muito especiais.

Alguns registros foram feitos pelo Juliano e Palito.
Dessa vez eu não registrei nada no Strava e vou cada vez menos registrar 🙂

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