Fotos por Freitas Freitas

Todas as fotos e texto abaixo por Helton Moraes

Bikecheck + Reviews + Historinhas = GT Karakoram com peças alemãs de ciclotour + dez anos de vida real:

  • Frameset: GT Karakoram, tamanho 20”, chromoly, fabricado em 1996(?), adquirido em 2006;
  • Cubo traseiro: Rohloff Speedhub CC – 14 marchas internas – 2006;
  • Cubo dianteiro: SON 28 Klassik (dínamo) – 2006;
  • Freios Magura HS-33 – 2012;
  • Bagageiro traseiro SL Touring;
  • Paralamas SKS P65 Chromoplastics;
  • Pedivela Shimano Exage no lado da coroa (braço cinza, coroa 46 de alumínio, coroas menores removidas), Shimano LX do outro lado (braço preto);
  • Guidão, canote, selim, aros, raios, movimento central, pedais, caixa de direção: sim.
  • Luzes dianteira e traseira de LEDs – alimentadas pelo dínamo, feitas em casa;

Peças que a bike já teve:

  • Selim Brooks Flyer honey (botei em outra bike, para randonneuring);
  • Pneus Schwalbe Marathon XR 2.0 (atingiram o final da vida útil após dez anos de uso);
  • Farol Schmidt E6 halógeno – aposentado pelo advento dos LEDs;
  • Freios V-Brake XT “pantográficos” – tirei para botar os Magura;
  • Coroa 39 de aço (a atual é 46);
  • Cadeirinha de criança feita em casa – melhor coisa! – tirei porque o piá cresceu;
  • Suspensão Manitou Black 2003 – botei na bike do piá.

Quando eu montei essa bike, eu estava em uma época de delírios com cicloturismo. O meu emprego era rentável porém monótono, eu morava com minha mãe, e então eu comecei a ler sobre viagens cicloturísticas mais longas, peças de cicloturismo, e essas coisas que quem gosta de bike e de internet faz. Alguns conhecidos de Porto Alegre faziam viagens para o Chile e outros lugares, e eu morria de inveja.
Logo em seguida descobri que, justamente em Porto Alegre, havia a Teutobike, praticamente uma ligação direta entre todas as marcas famosas e o nosso mercado local, eliminando toda a novela que seria ter que importar tudo da Europa, em épocas em que as compras por internet ainda não eram tão disseminadas.
Aos poucos comecei a comprar. Primeiro pneus e bagageiro, depois dínamo e farol, depois cubo com marcha, depois selim.

Tendo terminado tudo isso, fiquei com a sensação de um pássaro que construiu o ninho, e agora vai ter que botar o ovo. Quem monta uma bike para viagens longas tem que…?

Como na época eu estava estudando pra “mudar de área”, resolvi pedir demissão e aproveitar os três meses de férias da faculdade para viajar, exatamente como eu via os – cicloturistasfamososfazerem – (bom, não exatamente, mas na minha cabeça…).

Nessa viagem, que foi de ida e volta a Minas Gerais, passando por lugares aleatórios, foi que conheci minha esposa – e meu enteado – e um ano depois eles vieram morar comigo. Dali em diante, a bike que era de touring/trekking passou a ser family-bike e mula de carga, com vocação especial para fazer rancho no super – com alforje e tudo. Muito fui em passeios noturnos com a minha esposa na bike (que era minha e virou) dela, e o guri na garupa.

A última fase, que dura até hoje, é a de commuter. Depois que comecei a ir trabalhar de bike todos os dias, essa é a bike de escolha nos dias de chuva, ou quando tenho que fazer um frete. Dali que veio a necessidade de fazer luzinhas fortes para ser visto de noite e de dia, porque o trânsito de Porto Alegre tá foda…

Depois de ter gasto tanto e andado tanto com essas peças de boutique, e antes do review peça-por-peça (Schmidt, Rohloff e Magura), algumas conclusões:

  • Vale a pena comprar peças que são caras mas duram muito, pois o custo se dilui ao longo de muitos anos;
  • Só porque a peça é famosa não quer dizer que ela não vai ir se desmanchando com o tempo. Não existe “eterno” nem “perfeito” nessa área. O que existe é peça que dá margem a ser consertada, e peça com fábrica séria por trás, pra te dar suporte caso seja necessário. Só que tem que ficar claro, independente do valor investido: Tudo. Pode. Dar. Problema. (e geralmente dá, se o cara usa);
  • Os alemães podem ser ótimos em engenharia, mas são péssimos em design. Ergonomia então, é algo que parece não existir pra eles. Mas pode ser que eu seja exigente demais;
  • O que mais quebra, dá pau, rasga e se desintegra é tudo e qualquer coisa relacionada a fixar e carregar bagagem na bike: parafusos de prender bagageiro, o bagageiro em si, fixações dos alforjes e bolsas, alforjes e bolsas propriamente ditos;
  • Nada que funciona com eletricidade (faróis de dínamo, por exemplo) é confiável.

 Bagageiro e Paralamas

Esses dois acessórios eu poderia revisar mais longamente, mas não acho que seja o caso. O fato é que, como tudo que se prende na bike, eles vão se sacudindo, se desgastando, se trincando, entortando, perdendo parafuso… Se tem uma coisa que eu não fiz com essa bike foi poupá-la do uso em qualquer condição, então eu diria que as peças sofreram o desgaste natural. Do bagageiro eu esperava um pouco mais de resistência nas soldas, várias quebraram, mas eu prendi com abraçadeiras plásticas grossas e ele continua sendo perfeitamente utilizável.

Compraria de novo?

O bagageiro eu preferiria um com o mesmo tamanho, mas da marca Tubus. Porém, se não encontrasse, talvez comprasse esse de novo, dependendo do preço. O fato é que não tem muitas marcas e modelos no Brasil, e essa é a marca que a Teutobike trabalha, ao menos por enquanto.
Já o paralamas, esse sim eu compraria o mesmo – a não ser, claro, que “aparecesse” um melhor, mas dessa largura acho difícil, sendo que comprei o P65 – 65 milímetros de largura – justamente pra botar pneu “canhão” e costumo andar seguidamente com pneus cravo nessa bike – já usei até pneus 2.35, e “deu”…

Outras historinhas da bike

Uma coisa que não ajudou muito na durabilidade de componentes é eu ter sido atropelado por Ricardo Neis aquela vez, então em especial o paralama traseiro e o bagageiro nunca mais foram os mesmos…

Uma vez essa bike caiu de cima de um carro a 90 por hora, na BR 116 em Canoas, mas “só” entortou o guidão, destruiu o aro traseiro, e entortou o dianteiro. Tudo isso foi corrigido no mesmo dia e a bike já voltou a rodar no dia seguinte, graças a Deus ninguém foi atingido por essa merda – que “parou” quando bateu numa parada de ônibus, conforme testemunhado pela minha esposa que estava no carro – eu felizmente ia de carona mais à frente…

O quadro já quebrou uma vez – logo à frente do eixo traseiro, no lado direito, entre a gancheira e o tubo – levei para soldar “como sempre”. As duas orelhinhas do bagageiro traseiro já quebraram, uma de cada vez, e em ambas as vezes mandei soldar de volta.

Antes da viagem para Minas, uma amiga me deu uma pulseira de macramê. Disse pra ela que ia amarrar no toptube para dar sorte. Fiz isso e andei anos com ele ali, sagrado, deuzolivre ele sair dali. Depois que arrebentou, botei dentro da pochete de ferramentas, e está lá ainda junto com outro “amuleto” que outra amiga deu. Um dia na Massa Crítica a filha do Sgarbossa me deu uma florzinha minúscula de plástico, que eu na hora prendi na bike e tá lá até hoje. Deuzolivre-ninguém-encosta-na-minha-florzinha-ali. Eu acho que, mesmo sendo cético como sou, nunca é demais. Que essa bike já escapou de várias, já escapou, então deixa os amuletinho lá.

Conclusão

Eu não sei até quando vou usar esta bike. Tem muitas horas que eu odeio ela, odeio mesmo, olho e fico com raiva, mas tem muitas outras horas que eu subo, pedalo e penso “que bicicleta boa”. Pra mim, que não tenho carro, faz toda a diferença ter uma bike TODA equipada, mesmo sendo um trambolho, porque tem coisa que da pra fazer com um trambolho desse. Certamente enquanto eu não tiver motivos fortes para desmontá-la, ou dinheiro sobrando para comprar outra muito melhor para os mesmos tipos de uso (uma Surly?), ela vai continuar em atividade. O fato é que nenhuma dessas situações tem qualquer chance de acontecer no momento, então provavelmente esse cafão ainda vai rodar muito por aí comigo, assim espero!

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