Seguimos com a segunda parte do relato da nossa passada pelo Uruguai em Fevereiro…

Ao final da ponte circular, que liga José Ignacio La Paloma, já não havia mais asfalto. O mar estava à nossa direita e a Laguna Garzon à esquerda. O dia estava muito quente e com um vento contrário fortíssimo. Paramos para almoçar logo em seguida, num horário próximo do meio dia, na beira da Lagoa. Quando voltamos para estrada, avançávamos e se tornava mais solta a areia do chão. Marcha leve, cadência alta e muito bikehandling nos próximos 70km.

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No meio disto encontramos um ciclo-viajante italiano, Frederico Lorenzzeti, que nos informou que a travessia da Laguna de Rocha era viável se empurrássemos as bicicletas em uma faixa de areia, entre o mar e a lagoa, por mais ou menos 3km. Em certas épocas do ano, essa faixa de areia é tomada por água, conectando a lagoa ao mar, impossibilitando a travessia. Chegando na Laguna de Rocha, empurramos as bikes, o vento contra era quase intransponível (visto que estávamos caminhando a maioria do tempo em areia fofa, com as bicicletas fully-loaded). Depois da travessia a pé, seguimos por mais 10 quilômetros até chegar no asfalto novamente, no trevo de La Paloma. Seguimos por mais 7km e paramos para jantar e dormir em La Pedrera. Época de Carnaval: tradicionalmente no Uruguai, todos na rua jogam bexigas de água em qualquer um que passar pela frente. Isso, inclusive em nós, que chamávamos uma certa atenção pelas bicicletas, equipamentos e roupa. Procurávamos um camping para nos alimentar de comida de verdade, usar fogão, despreocupar-se e descansar. Todos estavam lotados ou fora da nosso planejamento financeiro – média de 50 reais por noite/pessoa. Sem sucesso na busca, decidimos comer. Compramos pão, queijo, milho enlatado, tomate, maionese e banana. Saímos da cidade que estava em festa e avançamos por um breve trecho de asfalto até achar um bosque, sem cerca, ao lado da estrada. Comemos e dormimos ali, que apesar de ser próximo da estrada, era silencioso e tranquilo. Em meio a imensos eucaliptos, jantamos na total escuridão e dormimos com uma bela vista do céu.

Acordamos e seguimos rumo a Valizas. Em frente a entrada de Cabo Polonio, encontramos outro viajante em bicicleta: João Carlos, brasileiro, saído de Belém do Pará com destino para Buenos Aires. Até então estava 140 dias na estrada com mais de 10.000km pedalados. Conversamos sobre nosso trabalho em Porto Alegre, trocamos algumas informações sobre cicloturismo e equipamentos. Depois de 50km na manhã deste dia (que assim como todos os outros fez muito calor), chegamos em Valizas. Procurando por um camping, sem sucesso na primeira hora, fomos encontrados pelo “Rancho Negro”. Richard, o dono da casa, nos parou e nos colocou pra dentro. Era uma casa sem luz elétrica, autossustentável, com horta e sem campistas. Decidimos nos instalar, logo em seguida, deixamos as bicicleitas pela primeira vez e fomos caminhar e conhecer mais a cidade. Voltamos para o camping  e descobrimos que estávamos lá com mais 5 cachorros, 3 galinhas e 1 ovelha (que ficava presa numa coleira ao fundo da casa). Além da família de Richard, pessoas simples, as quais invejamos o estilo de vida pacato quando estamos na grande cidade. Lá finalmente conseguimos uma fazer uma fogueira e cozinhar coisas mais nutritivas e demoradas: massa, mjadra, arroz com legumes, yakissoba. Todas refeições temperadas e recheadas dos alimentos e temperos disponíveis na plantação da casa, que tínhamos carta branca para atacar. À noite no camping, vinho, fogueira, alimento, a grande amiga Ramona y otras cositas más… No outro dia, encontramos um par de amigos brasileiros pelas ruas de Valizas.  Caminhar na avenida principal é como voltar no tempo 40 anos: a feira hippie, os bares, as pessoas, a musica local, as padarias e inúmeras outras coisas que só uma pequena praia Uruguaia pode oferecer. Ficamos por três noites no Rancho Negro. Passamos bem, muito bem.

s.jpgRancho Negro
IMG_20160307_235922.jpgFoto por Vinnie Marchisio

Depois das três noites por lá, despedimo-nos às 7h da manhã do quarto dia (não se sabe em qual horário, estávamos desde sempre em três fusos diferentes: do relógio do Ogro, do meu celular e do celular dele) e tocamos com vento contra rumo a Punta del Diablo. Depois 50km pedalados pela manhã , almoçamos sanduíche, o famoso com tudo dentro. Nosso dinheiro estava acabando e precisávamos descobrir, não se sabe de que jeito, se ficaríamos mais uma noite ou tocaríamos rumo ao Chui/Brasil.

Descobrimos os horários dos ônibus no WiFi do “Por Si Marcha”. Decidimos voltar pro Brasil, se não fôssemos naquela hora teríamos de esperar dois dias até o próximo ônibus. Em duas horas completamos os 50km restantes até o Chuí. Compramos passagens na Classe Executiva, já que os lugares “comuns” haviam se esgotado. Fizemos a última refeição instantânea na desestruturada rodoviária. Logo após jantarmos entramos no ônibus para mais algumas boas horas de viagem retornando para Porto Alegre.

Tivemos uma ótima passagem pelo Uruguai e, além dos grandes apreendizados, percebemos que estes dez dias lá serviram de base para que o Bikehandling saísse do papel. Nas próximas semanas, postaremos uma galeria de fotos que tiramos por lá.

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